Não foi preciso ir no Dom Malam para vermos alguma criança. Vimos ali mesmo, no HU. Vemos aonde olharmos. Mas as vezes não enxergamos-nas. Não enxergamos tantas outras coisas. Não enxergamos a vida, toda ao contrário, as inversões de valores, nossas crianças nas ruas, passando fome, trabalhando, sem escola, lazer, comida. Não vemos eles, não vemos nossos jovens, adultos e idosos. Apenas não vemos várias coisas, ou, até vemos mas não enxergamos e não sentimos como deveríamos sentir. A ânsia, o desconforto que vai na alma. No HU, nos pediram, “vocês poderiam ir no quarto, que tem uma criança de 9 anos que foi esfaqueada?”. Parei! Com um pouco de tempo fomos lá, e como quase toda criança que encontrei ate hoje lá, ela muito acanhada, respondia uma coisa ou outra que insistentemente perguntávamos e tentávamos animar, inventar algum jogo que, nem eu sabia o que queria que provocasse nele. Que olhos lindos ele tinha! Olhando mais um pouco, vi suas unhas todas sujas, sujas de verdade. Unhas sujas, pretas, que denunciam uma condição que não sabíamos qual que era mas gritava, não era algo comum a uma criança, ou a quem que que seja. Arrancamos alguns discretos e tímidos sorrisos, e aquele olhar verde em nossa direção. Depois, nos disseram que quem tinha provocado aquilo tinha sido outra criança. Parei, novamente! E deixando de lado o perfil vingativo, frio do ser humano que cada vez mais vem se pautando na lei de talião , pensei, o que me doeu mais ainda. Me veio o conto de Mineirinho de Clarice Lispector. Que realidade é essa, a qual as crianças e pessoas vivem, e as coisas parecem ser banais e não provocar o ar de espanto e de absurdo que nos é instantâneo ao ouvir notícias desse tipo? Que realidade é essa que está sob nossos olhos, mas não vemos e parecemos inertes e incapazes de fazer algo de concreto. Desde quando damos o "décimo terceiro tiro"? ... Sei lá. Talvez seja um começo sentir todo esse desconforto e embora incomode, agradeço por sentir, não quero apatia. Não quero permanecer sendo uma sonsa sensorial.
( tentei saber dele com outro grupo que tinha ido lá, uma colega falou sobre um menino que teria caído de cavalo e não sofrido essa violência. mas será que importa? faria diferença ter sido somente um equivoco? isso impede de que não esteja acontecendo ou a acontecer em algum lugar, sob nossos narizes?!)
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segunda-feira, 30 de julho de 2018
terça-feira, 24 de julho de 2018
Tina Gatínea, 1 º andar HUT, 21/07/2018
em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas
o outro
que há em mim
é você
você
e você
assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós
(Leminski)
Que nos encontremos em cada um, que nos encontremos no sorriso de um que representa algo que você anseia para seu futuro, que nos encontremos na leveza daquele do corredor que gostaríamos de conseguir levar para nossos corredores, que encontremos motivos de seguir em frente diante das amputações de nossas vidas. Que nos encontremos nos outros e isso faça com que nos encontremos com nós.
quarta-feira, 18 de abril de 2018
Tina Gatínea, HUT 2ª andar , 13-04-18
Voltei esse semestre pedindo desculpas sobre minhas ausências passadas e eu lamentava de verdade, pois estar mais com Tina significaria que tudo estaria bem... Deus sabe o quanto significava conseguir ter todos os encontros com Tina e Gigi, Frederico, Beto, Lolla, Pablito. Hoje, no final desse semestre, quantas pessoas maravilhosas conhecemos, quantas nos conheceram e estiveram conosco dividindo suas dores, esperanças, fé, sorrisos arrancados só em nos ver ou nos sentir. Sempre vou imaginar se fomos o assunto da ligação para a família que anseia por notícias, a foto que fica registrada com sorrisos, com o sorriso daquele que importa, daquele que vai arrancar o sorriso de quem o acompanha, retratando um misto de alívio, felicidade, compaixão e resgatando alguma forma ou resquício de esperança dele, que muitas vezes acha que não consegue lidar com aquela situação. Naquele momento, naquele encontro surge um sopro de gratidão, quando coisas pequenas ganham uma dimensão que transborda nossos corações. Encontramos Sr. Wilson, que sem enxergar, enxergava com o coração, enxergava nossos corações. Ele pedia que rezássemos, que orássemos por todos doentes. Pedia que alegrássemos todos ali. Esse pedido reverberou dentro de mim e que assim continue. Que continue aprendendo muito com a fé dos que estão ali diante das situações e dias difíceis. E diante de tudo isso, ainda lidamos com a ingenuidade deles, quando nos falam "o quanto nosso trabalho é bonito", ou quando perguntam "se a gente ganha pra tá lá". A gente ganha, sim. Ganha muito, ganha auto conhecimento, ganha experiência, sensações que muitas vezes nem são tão agradáveis mas necessárias. A gente ganha quando, mesmo sem nos ver e apenas nos sentem, lembram e perguntam por nós. Transformam nossos dias. A gente ganha muito em cada dia e no final de cada um, quase sempre, podemos cantar: " Pra entender o amor, faça um trato com a fé. Diz que o céu, quando quer, força o braço que for e abrir o mar aí. Fica mais leve o peso do meu coração. Fica mais leve o peso do meu coração!"
Meus companheiros de dia, Frederico dos Ombritos e Beto Caroteno. ♥️
Tina Gatínea, HUT 1º andar, 12-04-18
O palhaço encanta, sorri e canta,
até o momento em que ele mata a alegria,
aprisiona o sonho e esconde
o sorriso em sua alma triste.
Desperte, palhaço! Acorde para a alegria.
Tire a máscara! Brinque!
Lembre-se que nada pode deter
o amor que a tua alegria transporta.
Recolha as agonias da tua alma
triste e liberte aquele sorriso contido.
Eu sei que tu estás à espera daquela
mão que acaricia tua face e
preenche o vazio da tua alma faminta de amor.
Explode palhaço!
Espalha teu amor e tua alegria,
mas permaneça sempre
com o toque de saudade
que mãos amorosas lhe deixaram.
(autor desconhecido)
até o momento em que ele mata a alegria,
aprisiona o sonho e esconde
o sorriso em sua alma triste.
Desperte, palhaço! Acorde para a alegria.
Tire a máscara! Brinque!
Lembre-se que nada pode deter
o amor que a tua alegria transporta.
Recolha as agonias da tua alma
triste e liberte aquele sorriso contido.
Eu sei que tu estás à espera daquela
mão que acaricia tua face e
preenche o vazio da tua alma faminta de amor.
Explode palhaço!
Espalha teu amor e tua alegria,
mas permaneça sempre
com o toque de saudade
que mãos amorosas lhe deixaram.
(autor desconhecido)
Com a presença ilustre de Lolla Lantejoula e minha amiga de longa data, Gigi Abacaxi!
segunda-feira, 26 de março de 2018
Tina Gatínea, HUT, primeiro andar, 20-03-18
EITA, que nossa ultima visita foi boa viu... EU ando com a memória mei ruim, né, pra variaar. Acho que é a idade chegando. Mas eu lembro que foi boa, do sorriso de quem ia ter alta, da senhorinha que tava toda emperiquitada, com as unhas pintadas, de batom e, tava lá, passando perfume. Pois pense, acho que ela ia a uma festa. Lembro de outra senhorinha, um amorzinho, carinha de vó mesmo, tava lá com a neta que, sem nenhum ciume, deixou a vovó dela nos adotar também, e prometeu até fazer bolinho de chuva!!! Ahhh, também tinha um povo falando de projeto, projeto, eu nao entendi foi nada. Mas foi bom viu?! Eu e a Gigi escutamos um arroxa que ela viciou depois: Baby, alôoo!!! E depois foi tanta da foto, porque estávamos bem modeletes.
"- Vamos pra balada?
- Lá tem onde sentar?"
Gigi, curiando atrás dessa janela bem aí ...sameninaaa!
E, tcharan, nozes!
"- Vamos pra balada?
- Lá tem onde sentar?"
E, tcharan, nozes!
domingo, 18 de março de 2018
Tina Gatínea, HUT, 09/03/18
" Um é pouco, dois é bom, três é demais, que nada!!!! Um é pouco mesmo, dois é bom, mas seeeeeeeeeeeeis foi muito bom!!!!"
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Tina Gatínea, HUT, 9/02/18
Sabe aquele episódio do Chaves, da ida a Acapulco? Pronto. Sabe aquela sensação que você sente ao vê-lo ali sem ter ido? Pronto. Foi mais ou menos assim que a gente se sentiu, nessa sexta que antecede o feriadão de carnaval. Pela janela do final do corredor a gente sentia que a cidade tava com um clima diferente, que tava bem mais vazia do que o comum. E nós estávamos ali. Eles estavam ali. Como que esquecidos pela vida de também embalá-los pelo clima festivo e contagiante da época. A vida não pára. As enfermidades, não respeitam. Não tem festividade, não tem data especial. Lançamos esse jogo de carnaval e talvez esse foi nosso maior desprazer ou, forçando-nos ao copo meio cheio, prazer. Sim, prazer de mais uma vez estarmos de frente e aprendendo sobre a condição daqueles que ali estão. Talvez tenha sido por isso que demorei tanto para escrever esse diário, porque eu precisava pensar - mais do que normalmente penso- para conseguir tentar me expressar por palavras o que eu senti quando vi aquele episódio do Chaves quando criança e alguns da vida real e, ainda alguns, que crio na imaginação- o mundo do " e se...". Ainda assim sei que isso que vos falo não traduz o meus pensamentos, angústias e impotências nas suas totalidades. No meio desse jogo, descobrimos - o que já era de se esperar - que o melhor bloco é o de casa e que o maior enfeite não é o glitter mas sim o sorriso de estar indo para a maior folia que eles poderiam ter em meio a tudo.
Além de tudo isso, conheci uma Sra. com um nome mais lindo, Elisa... ✨
Além de tudo isso, conheci uma Sra. com um nome mais lindo, Elisa... ✨
domingo, 11 de fevereiro de 2018
Tina Gatínea, 23/02/18 - HUT
A última visita parecia mais uma aula de anatomia. Eita, que eu descobri que a gente tem 3 bocas. Isso mesmo, 3 bocas!! Haja dinheiro pra ir no dentista, foi o que pensei. Mas aí me disseram que a gente não tem dente em duas dessas bocas. Eu e Pablito Cabeção ficamos logo curiosos! Foi uma descoberta e tanto. Uma delas que tá no meio do caminho entre as outras duas, é a boca do estômago. A outra... não vou dizer a resposta assim de cara, não! O que é o que é...? Pensa aí um pouquinho! 😂 E então saímos ensinando a todo mundo. Afinal, temos que compartilhar conhecimento.
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
Tina Gatínea, primeiro andar HUT, 16/01/2018
A língua que a gente entende é o amor
O corpo que a gente tem que assumir
Quando o nosso ser insiste
Não há ninguém que possa mais
O corpo que a gente tem que assumir
Quando o nosso ser insiste
Não há ninguém que possa mais
Não procure mais, irmão
Não procure mais, irmão
Deus está no ato de assumir a si
Não procure mais, irmão
Deus está no ato de assumir a si
Lá de onde eu vim não há dor que não passa
Não tem tempo ruim nem conversa fiada
Não há mal que não possa ter seu fim.
Não tem tempo ruim nem conversa fiada
Não há mal que não possa ter seu fim.
Eu e Gigi Abacaxi antes de pegar o ônibus pro Maranhão.
Um dia que sentimos a fé nos sorrisos de "bebês"!
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Tina Gatínea, HUT, 19/12/17
Dessa vez, além da maravilhosa Gigi, tive a honra de
conhecer Pablito Cabeção. Estávamos com uma energia tão boa, tão maravilhosa. Talvez
por causa da reunião que nos trouxe um momento de manutenção que perdurou em
nós até ali ou só porque o dia era daqueles bons. Daqueles que a gente tá bem e
com cabeça erguida mesmo sem ter tantos motivos. E ao som do maior fenômeno
escandaloecatombicamente, Aniraaa - vai malandra an an...- e fomos! Foi tão alto astral. Imaginamos como seria ganhar na mega sena
juntamente com Cleia, que por sinal, nos ensinou um palavriado, migrila, sigrila e os grilos todos. Ficamos impressionados com a tattoo-woman que mais parecia um bocado de quadro de arte ambulante... E até falamos com Adriano
que ainda não se decidiu se ama a sogra e o sogro, mas que ama muito a filha
deles e por isso era o acompanhante do
sogrão (bem estilo entre tapas e beijos).
que energiaaaaa!
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
Tina Gatínea, HUT, 12/12/17
Desculpa minhas ausências. Você pensou em mim? Você esperou por mim? - ecos de um canto a outro do estado ou na minha mente?- A você que não me conheceu. A você que não teve com quem desabafar, falar, ouvir. A você que não soltou um sorriso espontâneo ao me ver. A você que me queria por perto por algum momento. A você que sentiu minha falta, aonde estiver, me perdoa! Também perdi muitos momentos com você! Longe e do outro lado, senti o que Tina, Gigi, e todos os que se propõem a por muito mais do que um nariz no rosto, provocam nas pessoas. Nos tornamos a novidade do dia, da ligação aos familiares. Nos tornamos a melhor coisa daquele dia, daquela situação, dos últimos dias. "Quero poder ser motivo de gratidão no olhar do acompanhante que encontrou alguém que ao seu ver parece lidar melhor com aquela situação mas que na verdade, ao sair de lá deixando um clima mais leve ou até mesmo um sorriso no rosto do paciente, vai ter renovado suas forças e sua esperança". Foi o que escrevi naquela carta de intenção, quando falaram sobre escrever o que você tinha no coração. Escrevi antes de me tornar Tina. Se escrevesse hoje, acrescentaria que mesmo que as forças e a esperança não consigam ser mais renovadas, a lembrança de um sorriso diminui o abismo no qual as más memórias e a dor te jogam. Nos tornaremos lembrança! Voltei. Volto aos poucos, tentando estar mais disponível do que meramente engraçada. Sem muitos segredos, enferrujada - a ponto de esquecer meu batom - e com poucos jogos, mesclei Laís e Tina. Ouvi, falei, brinquei, me perdi nos meus pensamentos, nas minhas lembranças, culpas, dores. Recuei, evitei, senti. Aliás, sentir é algo inevitável. Senti extremos. Fiquei feliz em dar ouvidos a Seu Ulisses. Senti que ele ao falar do herói da Odisseia que também carrega seu nome ou ao se exibir com seu inglês, ainda se sentia autônomo, orgulhoso, útil. Naquele momento ele era tudo e o hospital não podia tirá-lo dele. Senti a esperança e a fé que a fala mansa e o sorriso tímido de Cléber traziam nos surpreendendo. Senti a coragem de Nayara que enfrenta com coragem a esclerose múltipla, a diabetes, tumor no pulmão e que já não tem mais forças nas pernas... Se isso fosse um filme, ansiaria que o final fosse diferente do que vi e que, ao querer ver o sol, ela consiga ir até a janela no final do corredor e consiga sentir o novo e real significado por trás das pequenas coisas. A minha impotência mais uma vez se fez presente. Senti esses extremos que me fazem me perder nos meus pensamentos e mergulhar na minha bagunça. Sinto minha dualidade pungente, mesmo sem compreender como caminho de um dia convivendo, lidando e sorrindo com meus fantasmas ao aqui e agora, na necessidade de dar significado e "desafrouxar" os nós através desse diário. Voltei e como bagagem tento me confortar e seguir com as memórias que me deixaram.
" Tina e Gigi Abacaxiii "
"E é devagar que se desfaz
Todo medo que insiste em apertar os nós
Mas, meu amigo, reconhece-te a ti mesmo,
Dê valor ao caminho que te escolhe
Palavras têm poder e os rastros que deixamos por aí
Depressa vão chegar no infinito..."
" Tina e Gigi Abacaxiii "
"E é devagar que se desfaz
Todo medo que insiste em apertar os nós
Mas, meu amigo, reconhece-te a ti mesmo,
Dê valor ao caminho que te escolhe
Palavras têm poder e os rastros que deixamos por aí
Depressa vão chegar no infinito..."
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Tina Gatínea, HUT, 15/09/2017
Sempre depois de nossas visitas, é comum fazermos o ritual do "que bom", "que pena" e "que tal". Confesso que não sou muito boa no "que ta"l. O "que pena" já se fez presente algumas vezes que, embora tenham sido desconfortáveis, fazem parte do processo e nos ensinam muito. Mas essa visita me rendeu um "que bom" tão maravilhoso e um sorriso abobalhado no rosto. Lembra do Seu Reginaldo, aquele que, certamente, por conta de sua condição parecia ter sido usurpado de seu eu? Pois então, acho que finalmente o conheci, e isso foi sem dúvidas um dos maiores motivos do meu sorriso naquela noite. Nem a máscara de oxigênio atrapalhou esse encontro. Ter recebido tamanha receptividade, compartilhando seus maiores orgulhos e histórias de uma maneira alegre e empolgada foi a concretização do sentimento de gratidão que às vezes parece raro ou abstrato. Mas não! Ela existe e - nossa! - eu a senti naquele dia. Mais um dia! Mais um dia que pequenas coisas tornam-se grandiosas... Transcrevendo esse momento me surgiu um "que pena", aqui e agora. Que pena que a acompanhante do Seu Reginaldo não era aquela filha do outro dia. Não que a que estava acompanhando-o não merecesse sentir a alegria de ter presenciado o seu pai com aquele astral. Mas é que aquela, que parecia perdida e inconformada com a situação a qual estava, merecia um afago no coração e um lembrete, informando que seu velho pai ainda está ali, de corpo, alma, histórias e sorrisos. Enfim, acredito que a que ali estava com certeza deve ter compartilhado a notícia que seu pai estava bem e aonde for que a outra estivesse, ela certamente ficou feliz. E a frase passou a ser outra o que os olhos não veem, o coração sente sim!
Tina e Michel, o companheiro mais estiloso, com o qual eu dividi esse sentimento de gratidão.
Tina e Michel, o companheiro mais estiloso, com o qual eu dividi esse sentimento de gratidão.
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
Tina Gatínea, HUT, 12/09/2017
Saber ouvir, falar... saber o que falar e quando falar, o momento certo, o que conforta, o que nos traz a realidade? O silêncio dói, as palavras também. Mais uma vez todo esse dilema se faz presente em minha vida, a diferença é que dessa vez eu estava do lado oposto, o lado de que deveria levar algum conforto. E em todos os momentos que refleti sobre ser conselheira ou ouvinte, nunca me senti tão boa quanto muitas pessoas já foram comigo. Dessa vez, talvez não tenha conseguido ser também mas tentei, tentei estar disponível... escutei, falei. Dessa vez, sem muitos jogos, fui mais Lais e menos Tina e acho que o mesmo aconteceu com a fofa da Gigi Abacaxi, que por sinal foi uma ótima companhia. Dessa vez, os acompanhantes foram os protagonistas que, pelo menos naquele momento, ganharam as vozes e as atenções que, de certa forma, os dias no hospital e a sua entrega pelo seu enfermo lhes tiraram. Mas aquele nó acumulado na garganta precisava sair. Julia, minha vontade era de te abraçar porque houve momentos que me faltaram as palavras - me perdoa!- mas eu sei o que tu passas. Eu te entendo quando você se sente incompetente por não fazer Seu Antônio comer ou falar. Julia tu precisa entender que teu amor e cuidado são as únicas coisas que tu podes oferecer e isso é suficiente - eu também preciso saber disso! - e que seu "veinho" consegue sentir toda sua dedicação. Ainda naquele quarto, também me vi na acompanhante de Seu Reginaldo, que bastante alterado devido, certamente, à sua condição machucava sua filha com palavras duras. Saí de lá sem saber o nome dela, mas se pudesse, falaria que a entenderia, que sentia sua dor ao ver seu pai e não reconhecendo-o, pois parece que a doença e toda sua condição por muitas vezes toma conta da pessoa, usurpando-a e a deixando irreconhecível. Mas seu olhar denunciava susto e revolta, como quem só quisesse sair de lá, ficar sozinha, cair no choro, ficar tentando achar o por quê daquilo acontecer e, consequentemente, falhar... Depois veio Seu Epifânio e sua filha Cristina. Naquele momento veio um afago e uma nostalgia que me fez relembrar gratidão em meio a situações difíceis. Sorrisos foram arrancados ao ver como ela falava do seu pai, ele da filha e os dois da vida, como quem já tivessem passado por muitas coisas com muita força e humildade para aprender...
Enfim, foi um dia que pude ver e ouvir pessoas dando vozes a sentimentos que conheço e que talvez por falta de oportunidade ou por também não saber o que e como falar ainda formam nós na garganta. Embora as palavras pareçam fugir e não me sinta uma boa ouvinte, estive lá e pude ouvi-las, pude entendê-las, me senti ainda mais humana e, ainda que já soubesse que existiam, foi diferente me ouvir em outras vozes. Foi um sentimento ainda mais forte de unidade com aquelas pessoas. Espero que elas, pelo menos naquele momento de protagonismo, tenham se sentido confortadas e aliviado alguns dos muitos nós na garganta. Infelizmente, é inevitável os dias difíceis mas todos eles são enfrentados com coragem. Aos acompanhantes, por mais incrédulo que seja, temos que acreditar que fizemos/fazemos tudo que estava/está em nosso alcance. Eles, nossos enfermos, sentiram, sentem, sentirão nosso cuidado, nossa compaixão, nossa entrega. Nesses momentos somos suficientes.
Gigi Abacaxi e Tina Gatínea
"Tanto faz se é sorrindo que se desfaz
Todo nó da garganta ..."
Enfim, foi um dia que pude ver e ouvir pessoas dando vozes a sentimentos que conheço e que talvez por falta de oportunidade ou por também não saber o que e como falar ainda formam nós na garganta. Embora as palavras pareçam fugir e não me sinta uma boa ouvinte, estive lá e pude ouvi-las, pude entendê-las, me senti ainda mais humana e, ainda que já soubesse que existiam, foi diferente me ouvir em outras vozes. Foi um sentimento ainda mais forte de unidade com aquelas pessoas. Espero que elas, pelo menos naquele momento de protagonismo, tenham se sentido confortadas e aliviado alguns dos muitos nós na garganta. Infelizmente, é inevitável os dias difíceis mas todos eles são enfrentados com coragem. Aos acompanhantes, por mais incrédulo que seja, temos que acreditar que fizemos/fazemos tudo que estava/está em nosso alcance. Eles, nossos enfermos, sentiram, sentem, sentirão nosso cuidado, nossa compaixão, nossa entrega. Nesses momentos somos suficientes.
Gigi Abacaxi e Tina Gatínea
"Tanto faz se é sorrindo que se desfaz
Todo nó da garganta ..."
sábado, 9 de setembro de 2017
Tina Gatínea, HUT, 01/09/2017
Mais uma visita ao primeiro andar do HU e dessa vez com os companheiros Juju Bochecha e Txequinaudo. Mais histórias, mais pessoas dispostas e outras nem tanto, mais sorrisos, mais olhares, mais um dia de convivência com o outro, com a vida... e com um festão. A festa foi tão boa que dançamos, mandamos um " Vai safadão", cantamos de Aline Barros - com toda a classe e afinação dos meus companheiros- até "galopeeeeeira" - comigo avacalhando tudo! - , ouvimos e nos divertimos tanto que só vendo! Como não lembrar das gargalhadas de Dona Altair e sua filha falando - com aquele sotaquizin mineiro, sô - que tomariam espumante e comeriam pão de queijo ao sair de lá, em outra festa? Espero que já estejam ou em breve estejam brindando à vida. Mais uma sexta se foi com chave de ouro... (ops, uma chave que sumiu que demorou 30 min para aparecer hahaha).
terça-feira, 22 de agosto de 2017
Tina Gatínea, HUT, 18/08/2017
Galego Suvinil, Rita Testinha e Elijeans Kibon foram meus companheiros em mais um dia sendo Tina Gatínea, dessa vez no terceiro andar. O lugar mudou mas o que encontrei foi basicamente o que já tinha encontrado e que, certamente, encontrarei mais vezes. Olhares curiosos, assustados, desconfiados que depois se entregam e se transformam em sorrisos. Como isso acontece? Como provocamos isso? Com dias incertos naquele lugar hostil, esperando decisões, datas e previsões, chegamos e, por menor que seja, percebo que levamos algo. Algo que depende da pessoa que recebe. Levamos reflexões permeadas de responsabilidade para aqueles que poderiam de alguma forma ter evitado de estarem ali; reflexões que trazem o valor da vida e da família, como pro pai que não tem visto a filhinha. Levamos ouvidos, simplesmente, ouvidos para as reflexões do outros acerca da violência- e por que não uma receita de doce de leite, na mesma conversa? ! Levamos companhia para bagunça daquele que "de asas cortadas" nada tem. As asas são grandes, bem como o coração, a energia e o sorriso. Levamos algo e saímos com muito. Até o próximo passeio em que descobriremos mais asas!
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Tina Gatínea, HU, 11/08/17
Primeira atuação, no hospital, e eu não estava tão nervosa assim. O nervosismo e a ansiedade apareciam subitamente e logo sumiam porque, quando apareciam, eu logo pensava na formação, e ficava mentalizando que não teria nada demais, que iria surgir, iria brotar, iria ser espontâneo. Falava pra mim: "não pensa, só faz!". Já vestidos, nos maquiamos, subimos a energia e o nariz e, então, fomos. João Arraia, Michel Michelin e Tina Gatínea, naquele primeiro andar do HU... Eu via brilho no olhar, via curiosidade, via sorrisos bobos para coisas que, em situações normais e corriqueiras, não surtiriam as mesmas sensações que para aqueles que estão presos naquele hospital com suas situações, limitações e angústias. Primeiro leito, primeiro paciente que visitamos e lá estava, Dona Maria. Com uma perna a menos e com um olhar que denunciava dor, imagino que não a física mas a da alma que parece ter ido um pouco embora juntamente com aquele membro. Nossa presença a fez acordar. Ela nos observava com olhos marejados e acuados e nada falava, não respondia. De repente ela segurou, apertando a mão de Tina. E depois respondeu a pergunta da cuidadora, falando que tinha gostado de Tina. Já com certo tempo ali, e com companheiros que souberam lidar com a situação e que me passaram segurança, eu apenas fiquei, ficamos, mudos... só havia presença. Parecia que naquele momento éramos apenas nós mesmos. Nos "despimos" das máscaras, dos jogos, daquela energia lúdica, mas continuávamos com compaixão. A mão de D. Maria não queria soltar a minha e isso me marcou, o olhar me marcou, a voz sussurrada com aquela única palavra - "gostei" - me marcou. Eu fiquei sem reação. Com ajuda dos meus companheiros, resgatamos a energia e continuamos nosso passeio e encontramos tantas figuras, que minha capacidade de memorização não permite citar todos os nomes. A cuidadora de tantas pessoas, a senhora que "povoou" uma cidade com seus 50 e poucos netos e 72 bisnetos, Simone que cantou para todos e que elevou o astral do quarto, o paparazzi de Uáuá, seu Emanuel que tinha uma olhar gentil de vô e uma risada desdentada mas não menos bonita de se ver e de se contagiar com ela. Nossa! Quantas surpresas boas, quantas selfies tiradas. Ainda com uma sombra amarela no olho e um pouco extasiada, saí de lá me sentindo acolhida e importante por ter feito algo que do "lado de cá", não consigo dimensionar o que seria, mas quem está do "lado de lá", transmite gratidão. Saí de lá pensando no grande passo que foi dado no "mapa" que quero seguir!
Tina Gatínea, 30/07/17, Abraço Grátis
Uma manhã de domingo. Uma feira, onde encontramos muito
mais do que, comumente, se encontra em uma e um bocado de doido que pareciam
ter como lema: “ tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo” – mas que me
permita Drummond, duas mãos, um nariz de palhaço e uma energia que transbordava. Um misto de
sensações me tomou, nervosismo, medo, alegria, surpresa, conforto, mas aos
poucos a ansiedade foi sumindo com ajuda dos meus companheiros. No final de
tudo percebi que embora a ação se chamasse “Abraço Grátis”, ele demorava a
acontecer, nem acontecia ou era pedido através de um olhar. Pude sentir e notar esse pedido, esse olhar e
NOSSA!!! O abraço passou a ser um resultado, igual quando deixávamos a energia e
a sintonia crescer durante a formação. E, então, se mostrar disponível, e
conversar, e jogar com o outro foi o caminho até ele. E isso sim foi a essência
de tudo. Relembrando esse dia, o qual foi tudo novo, eu reflito sobre minha
carta de intenção, na qual eu expus muita coisa... falei sobre leveza, sobre me
encontrar, sobre não endurecer e, então, aquele domingo, aquela feira, aquela
primeira atuação, fez com que eu percebesse que Tina vai ser um dos primeiros
passos para ser quem eu quero ser hoje.
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