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sábado, 15 de março de 2014

Lisbela Duracel, 13 de março de 2014


"Tempo, tempo, tempo, tempo"
ou
"Mas tinha que respirar"
ou
À boniteza dos laços... 



E começa assim:



E hoje vou pedir para demorar um pouco mais...

Às vezes a gente tem dificuldade de enxergar as coisas. Foi por muito pouco dessa vez, mas confesso, tive ajuda, tive cuidados.

Esse momento foi bem amadurecido como o melhor momento para, no entanto, não menos sofrido.

Em um dos dias do processo de seleção me pediram para contar minha história e é impressionante como a minha e a da Unidade de Palhaçada Intensiva andam juntas, se confundem em muitos momentos. Tem sido assim. Estou na UPI há três anos, dos quais há dois sigo no sentido de garantir que o projeto exista, com qualidade, fiel a seus objetivos.

Assumi esse compromisso por amor, com o mesmo amor que vejo nos olhos de vocês quando os ouço falando do projeto, que vejo nas fotografias. O amor de acreditar, de aplicar o que aprendemos para além das fronteiras do projeto, para além desse grupo.

Porém, nem sempre foram flores ou rosas, como a do Pequeno Príncipe. E as dificuldades aparecem e tem o poder de checar nossa segurança, nossa firmeza enquanto grupo, nosso vínculo. Por isso, é essencial nos fortalecermos. É bonito seguir em frente, reconhecer um novo caminho, novas possibilidades. E é muito bonito quando todos vão juntos.



Bom, e durante esse tempo tenho aprendido muitas “coisas” bonitas com cada um de vocês, com a UPI:

- Aprendido que a felicidade é quase um exercício, diário, assim como o cuidado, a atenção, a paciência. São escolhas.

- No projeto me permiti trabalhar em grupo, dividir tarefas. E isso era mega difícil. Assim como compartilhar a responsabilidade dos acontecimentos, até mesmo daqueles que não estavam sob meu controle. Era mega difícil diminuir o peso de todas as responsabilidades que assumia. E tenho aprendido a ser mais prudente.

- Tenho aprendido a cultivar meus/minhas companheiros(as), a exercitar minha melhor dança, a ser mais sutil, a não julgar tão rápido e a primeiro escutar. E é um caminho.

- Tenho aprendido a perdoar. A entender o momento das pessoas, a entender o porquê de determinadas ações/comportamentos e me apaixonar por elas mesmo assim, do jeito delas.

- Tenho aprendido a usar a verdade como um norte, como meu nariz vermelho que aponta e eu sigo, sem grandes questionamentos. E felizmente estabeleci que minhas relações se dessem da mesma forma. Porém, ainda não tenho facilidade em lidar com aqueles que não levam à prática o que dizem na teoria. Porém, de novo, estou aprendendo que tais pessoas não devem influenciar meu comportamento, a forma como devo agir. E esse processo foi muito longo, por vezes, muito doloroso.

E quero compartilhar algumas coisas com vocês, que parecem meio óbvias, mas demorei para enxerga-las:

“Quem não reconhece seus erros está condenado a repeti-los”

Eu não sou perfeita.

Tenho perebas, marca de vacina e das quedas, já tive lombriga, coceira, piolho, unha encardida, dente com comida, casca de ferida, medo de cair, de não dar certo, de ser “reprovada”, medo de ficar sozinha, já tive uma “relação afetiva/carinhosa/divertida/etc”, mas que não era namorado, tenho alguns problemas na família.

E quem não tem?

E quem é perfeito?

Às vezes a gente julga o “erro” do outro a partir das expectativas que criamos sobre a pessoa. E isso, às vezes, é muito cruel, principalmente quando o pedido de desculpas que precisamos escutar é para reconstrução da imagem de um herói, quando estamos o tempo todo rodeado de seres humanos.

Sabe a parte que ainda me emociona muito na oficina de iniciação? Quando é contada a história do clown. Quando é mencionado o simbolismo do palhaço no circo, o que ele representa. Que aquele “ridículo, tolo” no meio da arena representa simplesmente o humano, com toda boniteza que isso significa, com toda boniteza que isso implica. Com todas as ações que permitem ainda encontrar encanto, compaixão e solidariedade naquele bobo com um nariz vermelho. E que o nariz vermelho é “a máscara que menos esconde e que mais revela”.


“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”

Eu ficava me perguntando o tamanho da responsabilidade disso. Até que ponto “cativar” não se tornaria um peso? Uma escravidão?

Mas, olha que bonito:

“[...] Que quer dizer cativar? É algo quase sempre esquecido – disse a raposa.
Significa criar LAÇOS [...]”
“Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro.
Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo.”

Há reciprocidade aqui. Só é cativado aquele que se deixa cativar e só cativa quem também esta aberto para tal. É como no hospital quando encontramos um ambiente em que as pessoas não estão abertas ao encontro e respeitamos. E sabemos quanta troca pode acontecer no hospital. O quanto saímos de lá com a jarra cheia. E os novinhos logo viverão isso, tá?

E olha só que boniteza:

“Meu Deus! Como é engraçado. Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço. Uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não embola. Vira, revira, circula e pronto, esta dado o laço.
Ah, então é assim o amor, a amizade. Tudo que é sentimento: como um pedaço de fita.
Enrosca, segura um pouquinho, mas não pode se desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas pontas do laço.
Por isso é que se diz: LAÇO AFETIVO, LAÇO DE AMIZADE. 
E quando alguém briga então se diz: romperam-se os laços. 
ENTÃO O AMOR, A AMIZADE SÃO ISSO:
NÃO PRENDEM, NÃO ESCRAVIZAM, NÃO APERTAM, NÃO SUFOCAM. 
POR QUE QUANDO VIRA NÓ, JÁ DEIXOU DE SER LAÇO.”

E prometo dizer mais algumas “coisas”, mas prometo que serei breve.

Medicina é um curso difícil. De um modo geral, os cursos de saúde são. Entramos na universidade cheios de planos, de esperanças e vamos nos acomodando/desestimulando ao longo do curso. Porém, é preciso nos aproximarmos de pessoas, de projetos que nos mantenham em sintonia com o que queremos, para continuarmos querendo muito e fazendo da melhor maneira possível.

Escutei uma vez um amigo que é muito próximo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra falando de como tinha sido a formação dele na universidade. Contou que uma vez o pessoal chamou a atenção dele, para que ele estudasse, se dedicasse, para ser um bom médico. Eles já tinham, como movimento, muitos militantes para seguir nas caminhadas e precisavam de profissionais que militassem para cuidar daquele povo.

Entendem o que quero dizer?

Precisamos/a comunidade precisa que sejamos bons médicos, psicólogos, enfermeiros, farmacêuticos, médicos(as) veterinários(as), atenciosos com a equipe de saúde, sensíveis às necessidades dos pacientes. Que sejamos honestos, sinceros nas relações que estabelecermos.



Confio na UPI como uma possibilidade de ajudar nesse processo. Não conto mais nos dedos das mãos quantas vezes vocês levantaram meu jogo. E não me refiro aos jogos no hospital, mas os jogos para a vida.

Os novinhos cumpriram um papel importantíssimo durante o processo de formação. De, com suas emoções, vontade, disponibilidade, fortalecer o restante do grupo em relação ao caminho, a alimentar nossa esperança no resultado daquilo que produzimos no tempo presente.

É bom que também chame a atenção para a delícia que é conviver com pessoas que estão em cursos diferentes. E sei o quanto é importante, para além da convivência, compreender o que é saúde e que andamos juntos. Que temos, nesse sentido, o mesmo objetivo e merecemos, enquanto profissionais, o mesmo reconhecimento. E por si só, já somos o medicamento de muitos que precisam.


“A gente sofre menos quando compreende e aceita que os filhos que a gente tem e cria não são nossos e sim da vida.”

Depois do meu aniversário, na ida para Salvador, com a bolsa repleta de cartinhas e segurando meu pedaço de bolo, fiquei pensando em que momento cativei cada um de vocês. Em que momento fiz algo que tivesse de alguma forma encantado o grupo. E senti uma paz enorme, uma sensação deliciosa de missão cumprida. Isso em relação ao próprio futuro da UPI. Vocês se apaixonaram tanto pelo projeto que, com certeza, cuidarão para que tudo continue bem.

Hoje eu saio da UPI. Eu hoje vim para dar tchau.

Já havia sinalizado algumas vezes a necessidade que sinto de me dedicar a outras atividades. E como disse Luiz Antônio, o Gabriela: “A vida é tão curta e a gente fica se dando em pedaços. Eu só consigo estar inteiro, o tempo todo, com quem estiver comigo e, estar inteiro é se dar inteiro”. E durante toda a minha trajetória na UPI “me dei inteira” e o projeto é muito bonito para que eu fique “me dando em pedaços” daqui pra frente. Entendem?

Desejo que o caminho de vocês seja doce e agradeço a oportunidade de aprender com vocês todos esses anos. Agradeço porque o olhar de vocês “melhora, melhora o meu”...



Da Ana Vitória e da Lisbela




(Diário de bordo lido na reunião de grupo da UPI no dia 13 de março de 2014)

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Lisbela Duracell, algum dia de Agosto 2013

Nem preciso comentar o quanto este diário esta atrasado. Ele começou na verdade no período de seleção dos novos. Quanto fui invadida por uma esperança imensa, naqueles novos meninos, na medicina, na saúde. Vejo o quanto é necessário ao longo do curso, procurar elementos que nos mantenham no caminho que escolhemos. Pode ser amigos, pessoas queridas, músicas, poesias, lugares, sonhos. Já escutei em várias palestras perguntarem o pq de nós estudantes entrarmos de uma forma na universidade e sairmos de outra, como se ao longo do processo houvesse uma corrupção de valores e ideais. Porém, é muito pesado carregar um peso tão grande. Bom encontrar ou reconhecer no caminho companheiros, que seguem caminhos bem parecidos, e que te oferecem o ombro sem grandes questionamentos e que te erguem nos momentos difíceis de continuar.

Na UPI eles se misturam. São de vários cursos, de várias idades e de vários cantinhos do Brasil. E é uma maravilha promover um espaço em que possam se comunicar, antes de compreenderem na prática profissional o quanto isto é importante. Ficava me questionando como chegar às pessoas que o projeto não consegue comportar e como garantir que as que estão dentro promovam o encantamento da arte do clown. Mas não tem como. Não tenho como garantir isso. Porém, acontece. Porque é bom abraçar as pessoas, sentindo todos os músculos quererem aquilo. É bom beijar, sabendo que aquele é o nosso melhor companheiro do mundo. É uma relação de cuidado que permite dizer adeus por imaginar que aquilo será o melhor para o outro, por mais que doa. Com isso, o projeto chega onde nem todos precisam virar clowns. E os que são, promovem o projeto quando se permitem ser sem a máscara, em espaços além do hospitalar, com todas as pessoas, independente de cor, classe econômica, profissão, sexualidade, condição de saúde.

(uma imagem disponível em algum lugar aí)
Pouco tempo depois lá estavam eles no hospital. Lindões. Eu só precisava, juntamente com os outros da coordenação, agir na organização dos horários, dos grupos nos hospitais, e conversar sobre as primeiras impressões. No “palco”, retornei com uma grande amiga, das antrolas, Miojita e um presente, um menino, o Marmiteiro. O caminho de quem começa é bem tímido, cheio de receios, de inseguranças. Mas o de quem já esta na estrada, só carrega a experiência de saber que é sempre novo e que o “estar em branco” é um dos nossos melhores amigos e que estar disponível é nosso melhor estado. Já conversei tantas vezes sobre isso. Não há cansaço. É bom vê-los começando, acreditando no que estão fazendo, vendo ou sentindo “os resultados”.


Sobre esta atuação, para comentar, teve um ponto que foi sinalizado pelo Marmiteiro e que é interessante compartilhar com o grupo. Tinha um rapaz numa cama, mas sem companheiro de quarto. Estava sendo acompanhado pela mãe, do lado, fiel, uma gracinha. Ele estava com uma cicatriz enorme no rosto, com sangue ainda saindo e com lesões na boca que o impediam de verbalizar muito. Uma queda de moto, de leve. Que coisa, como atuar com um rapaz naquele estado? Como é possível fazer graça? Aonde existe graça? Mas ele nos queria lá e atuamos... como é possível um tatuador fazer um erro daquele tamanho? Como pode um desenho sair torto daquele jeito? A mãe logo entrou no jogo... A graça, a risada, não é o foco, não é o principal. O caminho para chegar lá é que é mais interessante.
 

Por essas e muitas outras, é bem difícil dizer quem “ganha” mais. Por essas e muitas outras guardo a UPI no coração, sem pagar aluguel, sem cobrar pedágio. Pois não funciona como um refúgio onde posso ser o melhor de mim, mas o ambiente em que o que sou, do jeito que sou, com todas as características, histórias, e danças estranhas, são simplesmente naturais, minhas, e me tornam Ana e Lisbela. Onde o amor combina com amizade, com coisas bregas, com prosa, com poesia, com abraços e até com palavras que nos colocam no eixo.  

domingo, 19 de agosto de 2012

Lisbela Duracell, 18 de agosto de 2012




Hoje esta bem difícil de escrever. Nem sei como falar de Lisbela sem passar por Ana. E essa é a parte difícil, falar da Ana. Não é nenhuma bactéria ou vírus inconveniente. Ela sabe que tem uma galerinha preocupada, mas infelizmente a menina não sabe esconder muito.
Talvez por isso meu dia hoje começou com uma vontade enorme de desistir, de não ir, como vem acontecendo nos últimos dias/semanas.
Levantei cedo e enrolei organizando o meu quarto até o horário limite para sair. Tive que pegar uma moto. As maquiagens ainda não estavam com o grupo. Cheguei com uns 15 minutos de atraso, mas minhas companheiras ainda não tinham chegado. Entrei para a cantina. Não dei bom dia e nem sorri para ninguém. Não estava com vontade de fazê-lo. Simplesmente sentei e esperei o tempo passar num jogo do celular. Talita chegou. E não a via a muito tempo. Dei um abraço. Não meu melhor abraço. Logo depois Horts foi chegando. Daquele jeito. Ela me deu um abraço e “definimos” o destino do dia. Fomos ao primeiro andar... pegar o leão, falar com a equipe e ir para o quartinho.  Talita começou a se vestir. Sai para buscar água e chamei Horts. Falei que não queria atuar, mas também não queria que ela ficasse mal. Voltamos ao quarto. Deitei na cama e comecei a observar as meninas se arrumando. Horts colocou uma música para mim e começou a dançar.
Sem que elas percebessem, tinham encontrado a primeira paciente do dia. Sem nenhum sintoma de dor de barriga ou cirurgia marcada para tirar parte do intestino ou fígado ou trocar a valva do coração, mas com o olhar mais triste e perdido do mundo...
Tem sido assim por algum tempo. Vou colecionando coisinhas que me fazem triste. Como poderia atuar estando assim.
 A música é muito conhecida por todos, mas eu já tinha esquecido... É uma canção de ninar para nosso medo. E um dos trechos ela fala que esquecemos a cor que tinha o céu. Que estava esquecendo o quanto Lisbela me faz bem, do quanto sou feliz quando estou sorrindo, do quanto sou também responsável por subir o jogo da minha melhor companheira do mundo. É como a poesia que continua a mesma, mas as leituras, assim como a gente, vão mudando, não necessariamente um sendo consequência do outro.
Tinha que atuar. Não por mim. Sabia que iria ser difícil subir o nariz. Sabia que iria ser difícil chegar a 1000%.  
Saímos do quartinho. Encontramos muitas pessoas. Encontramos muitos olhares. Um senhorinha me fez muito bem. Muitos presentes. Mas não tinha voz de Lisbela.
De volta ao quartinho a atividade “de casa”. “Que bom” que vcs estavam lá, meninas. Talita jogou muito. Horts jogou muito. Que bom que Miojita não desistiu. “Que ruim” aquele cheiro de fezes... afffemaria... que ruim que “não estava inteira”. “Que tal” observar mais.


Na última reunião, Gentileza pontuou como “descobri” a voz de Lisbela. Não ter voz era uma coisa que me angustiava muito. E essa angústia me acompanhou durante a oficina de iniciação e a primeira de aprofundamento. Na segunda oficina de aprofundamento foi pedido que Lisbela desse uma aula em italiano de “como seduzir um homem”.  E foi... e do vazio, depois da fase de completo desespero, surgiu a voz de Lisbela.
E por ela não saiu hj? Olha Ana “atrapalhando” Lisbela ou Lisbela sendo solidária com Ana?!!
Sei que agora descobri de quem são os dois corações que guardam a “minha máscara”... 



sábado, 9 de junho de 2012

Lisbela Duracell, 22-05-2012


Bom, foi o jeito juntar todo mundo. E nem som tínhamos. Foi o jeito pedir ajuda as meninas que estavam no quarto, umas enfermeiras e técnicas. Começaram com “eu quero tchu, eu quero tcha”, mas como só lembravam-se dessa parte, repetiram várias vezes, muito solidárias ao nosso jogo. Umas fofuras!!

Dividimos as equipes: Lisbela, Xena e Franchesca para a direita e Teca e Chiquita para a esquerda e no segundo andar, massssssss as meninas estavam descendo e nos convidaram... Fomos, feito sardinhas... chegamos ao primeiro andar, dividimo-nos, e fomos seguindo os estímulos. Umas pessoas sentadas no corredor, de quartos diferentes, observando o tempo passar, uma senhorinha que contava carneirinhos para dormir, e na porta de um dos quartos, uma menina observando o “movimento”. Chegamos para conversar com ela. Ela era de uma tribo muito distante e já tinha uns três filhos de nomes interessantes. Na tribo “isolada” estava a chefe da tribo, a mãe dela. De repente entrou lá uma enfermeira e logo perguntei se também podíamos entrar. A enfermeira apontou para o acessório que nos faltava: uma máscara!! Ahhhh, FÁCIL!... fomos em outro setor e pedimos três máscaras e ENTRAMOS NA SALA. Que delícia!! A menina da tribo entrou com a gente e encontramos uma senhorinha linda com dificuldades para “cagar”. Tivemos a oportunidade de conhecer várias receitas que prendem e outras que soltam e como fazer e o que ela estava tomando e que dia ela iria ao banheiro... isto mesmo, muita intimidade.
Saímos de lá quase fedendo.

E não sei como, chegamos ao segundo andar... Fomos entrando na sala, mas, de repente, sai daquela porta maravilhosa, carregando uma senhorinha, um artista de cinema. Só podia ser artista.  Menina, que menino bonito. Fui entrando na sala e encontrei com Rayanna e Talita(não lembro se Lorena e Priscila, porque elas tinham acabado de chegar comigo), massss, ohhhhhhhhhhhhhhhhhh, tão bonito, ohhhhhhhhh, vamos lá, vamos, ohhhhhhhhhhh, todo mundo quer ver a gente, ohhhhhhhhhhhh, vamos, vamos... Ia e voltava várias vezes, coletando impressões do “corredor”, seguindo aquele homem bonito e voltava para ver no quarto a situação. Voltaram! Teca e Chiquita, de volta. Massa!! Muito bom!! Dessa vez a equipe se dividiu de forma diferente. E não lembro muito do que aconteceu. Não entramos em muitos quartos. Mas em um dos que entrei encontrei um senhor que já tinha conhecido em outra situação. Um homem de pouquíssimas palavras, mas apaixonado por elas em espanhol. Ele não estava melhor. (Impressões de Ana). Quando percebi que isso estava acontecendo (Ana “atrapalhando” ou “influenciando” Lisbela), o transporte ia saindo e fomos embora...

Agradeci as meninas por terem voltado. Ainda não tinha experimentado voltar depois de fechar o trabalho dentro de uma atuação e elas, companheiras lindas, contagiaram-se com minha vontade e fizeram jogos belíssimos. Muito solidárias.

Obrigada! Obrigada! Obrigada! Obrigada!

Lisbela Duracell, 12-05-2012




Hoje o dia não estava fácil. Meus pais chegaram à cidade e geralmente evito sair “agradecendo” a vinda deles. Mas eles tinham vindo sem aviso prévio e eu tinha marcado alguns compromissos. Uma reunião do mov. Estudantil às 15 e atuação da palhaço às 13h( por ordem de marcação). À manhã passei com meu pai em uma clínica de ortopedia. Não estava super feliz. E acabei chegando ao hospital levemente atrasada, levando comigo as maquiagens. Bom, a participação de Zeca não tinha sido previamente planejada, mas agradeci por ele estar lá. Ele lá, eu não precisaria atuar. Masssssssssss, Pinik não me deixou sair. Muito fofinhaaa, minha companheira linda. 


  

Foi uma de minhas melhores atuações junto com Pinik. Acontecia cada coisa que nem acreditávamos nas coisas feitas, em como foram feitas ou de como foram ditas... ríamos, simplesmente. Muitas vezes. Seguíamos todos os estímulos e eles iam crescendo, ficando enormes. Linda, linda, linda minha companheira. Encontrar com Zeca e/ou Zé era um presente.

E uma das maiores delícias foi atuar com o pessoal da limpeza. Envolver as pessoas. Encontrar lá a “de menor” e tantos outros em momentos íntimos com a privada. Ao ponto de eles oferecem suco para facilitar o processo...

Foi difícil ir embora.

Lisbela Duracell, 10-05-2012


Tínhamos que enfrentar algumas armadilhas da imperfeição: Amélia precisava voltar cedo para casa e Xena estava começando a enfrentar um senhor vírus. Massssss, estávamos lá e prontas.  Lembro de dois quartos de forma especial... o primeiro era o quarto do Seu ET(pela intimidade)... e a melhor parte é a boa recepção: “Vocês de novo?? Vão embora!!”. Um fofinho. A gente responde: “É claro que não... soubemos que você não se alimentou direito hoje”. Xena Macaxeira era a novidade. Eles estavam encantados com a beleza dela. 
Outra novidade super doce: o vizinho de seu ET, o cara da ópera que tínhamos tentado acalmar outro dia, estava tranquilo, sem amarras, falando e disse que lembrava da gente, que lembrava de quando estávamos cantando pra ele. E tinha outro vizinho, um senhorzinho agora fazia companhia para Seu ET. Uma fofura. Reclamava de dores em todo canto. Não tinha um dente na boca. Conversei durante um tempo com ele. Depois Xena foi conversar com ele. Menina, quase choro de rir quando ela me contou o que aconteceu. Ela começou um jogo de beijos postais e mandava beijinhos para o senhor e ele mandava de volta. Só que numa dessas cartas ele mandou uma surpresinha... Sabe aquelas mulheres das arábias que ficam cantando uma musica, movendo a língua, mas escondendo isso com a mão?? O senhorzinho mandou um desses pra ela, sem a mão na frente... Que safadeza... Que orgulho também... ela se saiu direitinho, ou seja, criou um jogo e se afastou.

Bom, depois desse tem o último quarto. O cheiro estava bastante “forte”. Tinha três leitos ocupados. Um senhor estava na porta e nos recepcionou pedindo que víssemos o filho dele na cama. O menino não respondia a muitos estímulos. O pai precisava mais. E foi pra ele a atenção. O rapaz do lado tinha o mesmo nome do menino na cama, então era o mesmo pai... “pedimos” que trocassem uns “eu te amo, pai” e um “eu te amo, filho”...

Na frente um outro rapaz, um gênio em informática. Monstrinho. Parente de Carmem Miranda, mas nas queria demonstrar a veia artística e nem deu o endereço da loja dele para levar meu PC para consertar, mas um gênio em consertos...

Nesse último quarto, um problema... Sofia começou a atrapalhar Amélia e Xena sem conseguir respirar direito. Fiquei um pouco só. Era hora do ônibus passar. Aliás, já tinha passado muito da hora...


Lisbela Duracell, 05-05-2012


Sabemos: muitas pessoas, muitos estímulos, mas Miojita se esqueceu de dividir o grupo e me pediu uma ajudinha... de boa!! Lisbela e Flavoca e Miojita, Valesca e Nana e nos corredores, alimentação do olhar do grupo inteiro... lado direito e lado esquerdo: começamos: conhecemos muitas pessoas lindas e no corredor a equipe se reuniu em torno da causa de um dos viajantes do lado esquerdo. 

Um dos senhores queria uma manga. Não comia direito a 11 dias e queria muito, muito, muito uma manga madura. Era o que ele mais queria. Encontrei Miojita sensibilizada conversando com uma das enfermeiras. Elas estavam consultando o prontuário para saber se ele podia comer manga. Ohhh, ele não podia. Mas ela disse que ele podia comer laranja. Miojita e Valesca foram correndo saber se ele queria laranja. Bom, não era uma manga, mas dava, ele aceitava. A enfermeira escreveu uma carta para o pessoal da distribuição de laranjas e o grupo inteiro assumiu a missão... fomos a cantina procurar laranjas em pleno horário do almoço. Não comentando todos os estímulos respondidos, pegamos a fila, um prato, uma faca, entregamos o bilhetinho, e pegamos três laranjas. Reunimos o grupo e voltamos para o quarto. Advinha quem queria havia pedido a manga e iria receber as laranjas... SEU ETVALDO...

Eu estava emocionada. Uma das mais lindas atuações. Tive oportunidades antes e de várias formas respondi, mas pela primeira vez, de forma visível, fomos contrários à inércia das situações, a comodidade da rotina. No outro dia ele recebeu a visita de uma nutricionista do hospital. 

Lisbela Duracell, 12-03-2012



Nina, nem sei se lembra mais dessa atuação. Muitas pessoas lindas. 



E o grande presente de atuar com você ou tê-la por perto organizando ou sonhando com alguma coisa.

  


 Mas, de vez em quando, por algum motivo, pessoas que gostamos muito tem que ir embora. E pegar aquele velho ônibus, ou avião, ou trem, ou disco voador ou algum outro meio clownesco tão verdadeiro quanto um olhar.



Espero nos reencontrarmos muito em breve e continuarmos construindo muitas coisas juntas. Admiro muito você e aprendi muito. 
Beijo Gigante
Abraço Gigante
Saudade Gigante

Boa Sorte, minha querida.

Lisbela Duracell
Ana Vitória Medeiros

Lisbela Duracell, 03-05-2012




Eu confesso que estava nervosa. Com um medo retado de Ana atrapalhar Lisbela. As meninas tinham criado uma expectativa enorme para a “primeira vez” no hospital e eu como “monitora”. E apesar de contabilizar todas as variáveis que podem influenciar nesse momento, como a falta de receptividade, a falta de abertura, a possível não disponibilidade delas ou minha ou do pessoal nos leitos e corredores e enfermaria, eu tinha tomado para mim a responsabilidade de ser muito bom, de segurar o jogo, de ser o melhor possível para que elas soubessem o quanto são boas, lindonas. E elas me impressionaram. Eu era a mãe orgulhosa. Acho que assumi isso fora do clown também, com todos eles. Assumi um cuidado com essa “primeira vez” de vários grupos e compartilhando dessa preocupação com outros monitores.

Foi uma noite de poucos quartos. Foi uma noite de muita dedicação. No primeiro, encontramos uma mulher que queria doces, outra que tinha doces, outra que queria frango assado e muitas marmitas com sopa. Nesse dia o hotel estava com um péssimo atendimento. Colhemos as queixas e nos comprometemos a falar com o pessoal do cardápio.

Nessa procura continuou no outro quarto. Encontramos um cara muito massa. Comprava e fazia muitos jogos. Se não me engano eram três “leitos”: no primeiro tinha um senhor com as pernas muito, muito, ABERTAS, coberto com um lençol branco fino. Estava ao lado da esposa. Lógico que comentamos sobre esse sistema de ventilação das partes. Ainda chegou lá o médico falando com ele. Tirei onda sobre o sistema com o médico que entrou no jogo. Menina, pintei. Ainda subi numa escadinha que tinha do lado, e fiquei falando sobre isso de lá de cima. Muito bom. [Gente, aos que não sabem, tenho miopia e astigmatismo, ou seja, não enxergo muito bem de longe, ou seja de novo, não tenho a menor ideia se a pessoa esta dormindo ou acordada. Conto sempre com minhas companheiras(os) ou tenho que ir bem perto – invento um jogo para essa aproximação também. Por que explicar tudo isso?? Bom, o senhor das pernas abertas estava nu por baixo do lençol e de acordo com minhas companheiras que comentaram sobre isso depois, dava pra ver tudo... EU NÃO VI NADAAAAA!! Imagine minha gente, estou falando para todos os companheiros, tem que salvar o amiguinho numa situação dessas. Claro que não aconteceu nada de grave e possivelmente inventaríamos um jogo caso houvesse, mas temos que ter cuidado...] O vizinho dele estava de turbante e era o cara de vários jogos. Muitas risadas, mas tive que engravidar de uma criança quadrada e minhas amigas lindas encararam a realidade da pouca beleza (brincadeirinha dele). Os jogos nos levaram para o terceiro vizinho, numa noite não muito boa. Me mandou ver se ele estava na esquina. Eu fui para a esquina, mas ele não estava lá. Eu avise, mas ele não acreditou. De boa, muito pouca fé.

Fomos para o quarto da ópera. Foi lindo. Tinha uma mulher sentadinha de costas para a porta, fazendo a unha do marido que estava deitadão lá, na maior. Cheguei quietinha, silenciosamente e fiquei paradinha. Quando ela olhou para o lado e viu meu rosto tão perto, levou um susto e caiu na risada. Eu confesso, eu também não resisti. Olhamos para o lado e tinha uma menina deitada em um colchão no chão, lendo... Responsável pela manutenção da produção cultural do quarto. Do lado, um rapaz amarrado e falando com ele o acompanhante. O rapaz estava angustiado e gritava muito. Para acalmá-lo começamos a cantar canções de ninar:
- “Boi, boi, boi, boi da cara preta...”
- “NÃO”
- Beleza. “Durma medo meu [...]”
- “NÃO”
- Beleza. Lançamos um pagodão no ritmo de canção de ninar... a galera deu muita risada.

Ele se acalmou um pouco e fomos conhecer o outro do quarto. Quando entramos ele estava se escondeu com um paninho no rosto. Só que muitas pessoas no quarto sinalizavam que ele é que estava precisando. Fantástico! Foi um presente, literalmente. Seu Etvaldo (estou divulgando com autorização dele) comprou muito os jogos e de forma muito bela. Até Lorena que estava paradinha na porta entrou no jogo. Um doce. Tínhamos excedido no horário e entrou no quarto Pinic, Likita e Zé avisando que o ônibus estava de saída... tínhamos que ir, só tínhamos um passe naquela noite. Massssssssssssssss, no meio do caminho de volta, encontrei um carrinho daqueles que carregam alimentos ou que apoia um suporte que apoia os alimentos ou lençóis e um rapaz do lado dele. Olhei para o rapaz, olhei para o carrinho, olhei para o rapaz. Ele olhou para o carrinho, olhou para mim, olhou para o carrinho e olhou pra mim e fez um “sim” com a cabeça. Não acreditei: ele permitiu que eu subisse no carrinho e começou a puxar o carrinho e me carregar pelo corredor. Meus companheiros vinham atrás... o rapaz fez uma curva lá na ponta e voltou na intenção de entrar no elevador. Perguntei se podia. Ele: pode!!. Continuei no carrinho e o rapaz, eu e meus companheiros descemos para o primeiro andar. FANTÁSTICOOOOOOO!!!

Sai preenchida. Muito injusto isso: recebi muito mais do que dei. Mas como foi belo estar com vocês meninas e estar com todos eles, nos mais diversos estados de disponibilidade.

Acho que, missão cumprida.










































































































































































































































































































































Lisbela Duracell, 28-04-2012



Conversei com minha mãe uma semana antes. Avisei que o grupo iria atuar no centro de Petrolina, no sábado, e que tinha oferecido o apartamento para a organização. Coisa simples, mãe: o pessoal chega, toma um leve café da manhã, troca de roupa, prepara a maquiagem, o nariz e toma as ruas. Minha mãe: “tudo bem”. Fui dormir por volta de 4h da manhã na sexta. Lembrei que tinha avisado a quem tivesse dúvida em relação ao figurino que poderia chegar mais cedo e tal, às 7h. JESUS!!! Acordei 7h da manhã torcendo pra que ninguém tivesse dúvida. Às 8h o pessoal começou a chegar, a conta gotas, risos e conversas pela sala.  Uma média de 30 pessoas entre clowns e fotógrafos e amigos e família. Menina, a sala, o quarto, a cozinha, o banheiro pequenininhos ficaram ENOOOOOOOOOOOOOOOOOORMES, GIGANTESSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSCOS, UMAS VALAS. Até dei uma olhadinha pra ver se enxergava o OOOCUSPORCU-US por lá. E a graça é que a síndica mora no apartamento de cima e não fizemos questão de limitar sons. Sem sincronia ou ensaio, o pessoal ia se distribuindo entre as atividades. Adorei tanta gente no apartamento. Adorei tanta gente que gosto tanto em minha casa. Estava muuuito feliz. Pouco a pouco foram subindo a máscara e encontrando o outro, alimentando-se no olhar do outro. Foi dada a largada. Lindos, coloridos, fantásticos. Desceram as escadas e encontraram Seu Zé, o porteiro. Como abraçaram Seu Zé... E tantos outros Zés que iam encontrando, conquistados de formas diferentes. E com abraços diferentes. Abraço com os olhos, abraços com os braços, abraços com as mãos, abraços com as palavras, abraços com os sorrisos, abraços com o silêncio. Pouco a pouco fomos relembrando aos novos a importância do caminho e de estar próximo ao melhor companheiro do mundo. A importância da verdade e a beleza, o encantamento do encontro. Pouco a pouco as ruas foram ficando bem pequenas.
 E sabe uma coisa interessante ou intrigante: pessoas agradecendo por compartilharem um abraço ou ressaltando a importância de um projeto que promove esse tipo de “ação”. Continuem fazendo isso e tal. Continuem humanizando os espaços, sensibilizando as pessoas. É triste reconhecer que durante o dia-a-dia corremos tanto que não temos tempo para ver as pessoas, as que estudam com a gente, as que trabalham com a gente, as que vivem com a gente, as que passam na rua, as que moram na rua. Corremos tanto a ponto de não perceber o quanto elas são importantes ou estão precisando de ajuda. Tem um texto de Fernando Sabino em que ele diz o seguinte: “Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo. Um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar (...). Passam e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.” Acho que com todas essas “possibilidades” de encontro, o “ABRAÇO GRÁTIS” serve-se de muito mais simbolismo, de um alerta geral para a cegueira pública, humana, desumana, que pouco a pouco, com justificativas superficiais, ignoram o que realmente é importante na vida, o que vale a pena.