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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Lulu Fiapinho - 2ª Atuação Maternidade de Juazeiro 09/06/2014


"O difícil é fazer o simples." Começo hoje com essa frase que martela minha cabeça desde às 5h da manhã. O diário de hoje não é diário, é um desabafo. Um desabafo doloroso de alguém que está magoada e com vergonha de certas coisas que acontecem nos serviços de saúde. Mas isso eu deixo pro fim, gosto de tudo bem explicadinho e não seria justo omitir coisas tão maravilhosas que aconteceram nessa manhã de segunda-feira.


Não dormi, a semana que está apenas começando promete tantas obrigações que saber que tem atuação, mesmo cansada, é como um oásis no sertão. O difícil é fazer o simples, sabe por quê? Porque é difícil deixar todas as provas, atividades e compromissos de lado por algumas horas, pra tentar fazer alguém sorrir numa manhã de segunda-feira. É difícil fazer o simples quando se demora 40 minutos para chegar a um lugar que se chegaria em no máximo 10 se não houvessem tantos contratempos. É difícil fazer o simples, mas é uma delícia quando uma maca largada no hospital vira uma grande história de polícia, e quando temos que nos esconder nos quartos para não sermos multadas, e que sorte a nossa, o quarto era o do delegado, estaríamos sãs e salvas. 


As horas se passaram até facilmente enquanto o simples era feito. Enquanto profissionais, acompanhantes, pacientes, estudantes, funcionários, todos se moviam juntos, colaborando, inventando histórias, como numa grande roda gigante de risadas. 


Vimos como o simples é bonito quando mamães nos pediam pra ficar no quarto delas por mais tempo, quando estudantes e profissionais ficavam felizes pela ajuda em passar as orientações de uma forma um pouco diferente, quando crianças davam gargalhadas só com olhares, quando as cozinheiras da copa disseram que os jogadores da  Copa ainda não tinham chegado, quando um menino pequenino nos mostrou como é possível ficar feliz mesmo após tomar injeção. A manhã que teve tantos contratempos para que desse certo, deu.

Tudo aconteceu tão lindo, tão encaixado, que achei que os sinais enviados sabe lá Deus de onde que algo estava errado eram pura imaginação. A atuação acabara, eu iria embora com a imagem de muitos, muitos sorrisos espontâneos que me foram dados, iria embora muito mais completa do que fui e com a certeza de que todos os sacrifícios que fiz para estar ali valeram a pena. Daí, na hora de ir, uma médica, sim, minha revolta não me deixa omitir, uma médica pediatra, que trabalha num serviço humanizado (um dos locais mais humanizados que já conheci), sem ética, sem cuidado, sem respeito, nos aborda na frente de todos presentes: funcionários, acompanhantes E crianças, e nos inunda de desaforos, de uma forma tão grosseira, mas tão grosseira, que não houve mais energia nenhuma que sobrasse, não tinha mais palavra a ser dita, baixamos o nariz machucadas, magoadas, e dali saímos, deixando uma senhora cheia de si por ter dito o que queria e várias outras pessoas chocadas pela cena absurda que tinham visto. Ela disse que achava nosso trabalho legal, mas que queria que nós fossemos direto "divertir as criancinhas", e não "atrapalhássemos os profissionais que estavam tão agoniados trabalhando", entre outras coisas e desaforos. Soubemos que ela havia se ofendido porque tínhamos brincado com ela, e em contrapartida, nos encheu de grosserias na frente de todos e provavelmente já tinha falado com outra profissional, pois uma de minhas companheiras foi interpelada por essa, que indagou acerca de permissão, documentações, e repetia que a 'médica tinha se ofendido" num sentido que significava que essa profissional por ser médica estava num nível superior aos demais, e por isso a ofensa seria mais grave. A maioria das pessoas que vêem aqui ler nossos diários não mereciam estar lendo todo esse desabafo, mas por ser um canal de divulgação do nosso trabalho me utilizo desse para justificar o que já é justificado. A palhaçoterapia é um trabalho sério, a UPI é um trabalho sério. É um projeto atrelado a uma Universidade. As pessoas aqui são sensibilizadas e muito bem capacitadas, uma capacitação de 40h, antes de entrarem em meio hospitalar. São recicladas em aprofundamentos e congressos, e suas ações são muito bem discutidas em reuniões. A humanização não é uma utopia, é necessidade, devia ser regra e não exceção. Trabalha-se para humanizar os serviços, do paciente ao acompanhante, do recepcionista ao diretor. Lidamos com gente, e como gente queremos ser tratados, cuidamos e queremos ser cuidados, respeitamos para ser respeitados e não atrapalhamos o trabalho de ninguém para poder executar o que nos propomos a fazer. 


Hoje Fiapinho foi interrompida, sua energia foi cortada, não pude dar um último olhar à criança que tanto fizemos para que nos dissesse o nome e que ficou assustada com tudo aquilo.
Hoje Fiapinho chegou em casa e chorou, chorou muito, de raiva e de tristeza (palhaço também sofre sabia? Não somos feitos de pano, assim como nos perguntaram hoje). Mas transformou essa raiva em vontade de fazer ainda mais pela humanização, transformou a tristeza em saudade de tantos momentos bons que viveu hoje e que quer viver muito mais. 
Hoje agradeço pela oportunidade de participar de algo tão lindo e que luta por objetivos tão importantes, agradeço pelas minhas sensíveis e corajosas companheiras, agradeço por ver exemplos ruins mas também muitos mais que são tão bons que podemos sempre nos espelhar, agradeço pela oportunidade de receber grosseria e devolver amor. E rezo para que nenhuma criança ou velhinho, animal ou gente, doente ou são, palhaço ou não, precise passar pelo que passei hoje, precise ser atendido por profissionais tão secos e sem amor que existem por aí e que não fazem jus aos belos juramentos que fazem. Hoje agradeço por poder deitar a cabeça no travesseiro com a consciência limpa, e poder acordar, principalmente às segundas de manhã, e ver tanto sorriso e tanta gente do bem fazendo o bem. Porque um dia, todos perceberão, que difícil é fazer o simples!



Ps. Fiapinho está muito realizada por ter um nariz novo, tão lindo e tão dela!


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Lulu Fiapinho - 1ª Atuação Maternidade de Juazeiro 19/05/2014

Demorei mais de uma semana pós-atuação pra vir aqui colocar meu diário.
Muita, muita coisa aconteceu. Ia escrever no dia mesmo, mas, além de ter ficado esgotada durante toda a tarde, tivemos uma reunião bem profunda a noite que me deixou sem vontade nenhuma de escrever o que eu tinha vivido pela manhã.
Não, não estou dando desculpas, hoje descobri o porque de tanta demora. Eu precisava de uma força motriz, um fato gerador que me impulsionasse a escrever essa primeira experiência. E esse fato veio hoje, de forma totalmente externa ao ambiente hospital e à UPI. Veio com alguns baques em outros campos da vida que me fizeram lembrar o quanto é bom subir aquele pontinho vermelho no nariz. E agora, sem mais delongas, estou aqui.
A noite anterior à 1ª atuação foi bem agitada! Diferente do dia do abraço grátis estava nervosa e um pouco apreensiva. Sem falar na ansiedade de voltar ao ambiente hospitalar, tão íntimo pra mim, mas que fazia tempo que não visitava.
Fiquei pensando a noite toda se devia ir ou não, se estava pronta... A cabeça cheia de dúvidas.
Mas aí fui, e fiz tantas mas tantas descobertas que se fosse contá-las todas não caberia nesse diário, sem falar que vocês perderiam a vontade de vir aqui depois dar uma olhada nas minhas futuras aventuras.
Chegamos, eu e minhas companheiras, e logo fomos nos preparar. Descobri que talvez eu acumule mais energia na minha caixinha, antes de explodir em Fiapinho, no silêncio e sozinha, minha cabeça continua falando alto demais e às vezes música ou prestar atenção nos outros me distraia muito. Enfim, subimos os narizes.



Saímos em busca do novo, o fato de não conhecer o local direitinho deixou tudo ainda mais emocionante.
Lá tinha muitas, muitas pessoas pequeninas, chorando e reclamando: não queriam tomar banho, descobrimos. Muitos não tinham nomes e fomos logo procurar os que tinham dois, fazendo a proposta para esses dividi-los com os que não tinham. Descobrimos que lá os meninos vestiam azul, as meninas rosa, e as vovós verde, mas de repente tinha um pequenino de verde, seria ele vovó também? Encontramos também aqueles que não queriam ser encontrados, mas Fiapinho nem se frustrou, deixava um sorriso e passava para o próximo quarto.


E assim fomos, conhecendo vovós, mamães, papais, e muitos pequenos que acabavam de conhecer o mundo, assim como nós, e que dormiam (preocupadíssimos com a Copa e os impostos) ou choravam pedindo Leito (lá tinha placas que diziam "leito", achamos que era uma nova forma de escrever "leite" :B ).
Haviam filas para o banho longas como as do INSS. Haviam moças com grandes barrigas que tinham engolido melancias, melões ou estavam com gases. Haviam moças com dor, mas que em meio a gemidos até que soltaram gargalhadas.


As pessoas que trabalham naquele lugar são bem legais e gostam de azul assim como Fiapinho e assim como eu. Inventaram de fazer prova conosco, faziam perguntas que respondíamos e depois nos davam 10! Fiapinho acertou todas! Uma senhora de azul tirou a pressão de uma moça que tinha engolido uma melancia e não queria devolver, mas resolvemos o problema!


Daí veio a parte mais difícil da manhã. Pessoas médias. Aquelas que não são nem pequenas nem grandes sabe? Fomos para um lugar que tinha várias delas, pareciam cansadas e tristes, estavam doentes disseram. E mesmo cansadinhas eram bastante espertas, mas conseguimos que desfilassem pra nós, em troca de emprestarmos nossas roupas, e também porque contamos o segredo: quando uma voz chamava o nome delas bem alto tipo assim "FIAPINHOOO" elas melhoravam e podiam ir pra casa!



A manhã já se estendia tanto que dali a pouco seria tarde, e um moço que nunca achamos nos chamou pra resolver um problema. Em meio a procura dele, encontrei pessoas que conhecem a AnaLu e fiquei com medo de como seria quando conhecessem Fiapinho, mas nós duas, ou eu, ou ela, conseguimos tirar de letra.
Voltamos ao começo, e baixamos o nariz. Realizadas e cansadas, conversamos sobre as nossas impressões. Achei bem legal essa parte, pois percebemos como cada uma de nós vê as coisas e os detalhes. E minhas companheiras foram exemplares! Voltei pra casa e dormi bastante (mesmo sem poder). E agora tô contando as horas pra voltar pra lá, tomara que não demore!


Beijos de lu(lu)z! (AnaLu/Fiapinho)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Abraço Grátis -15/03/2014 - Lulu Fiapinho

Eu estava achando que tinha sido só um sonho. A emoção e euforia de algumas semanas atrás, na formação, seguidas por uma pausa, como a que houve, no início foi angustiante. Nos colocaram no meio de um turbilhão e depois nos tiraram, que injustiça! Depois, aos poucos, parei muitas vezes para pensar se tinha sido tudo coisa da minha cabeça. Não foi! Comecei a lembrar de tudo já na reunião dois dias antes do Abraço. Tantas instruções, dicas, histórias... Meu Deus, cadê meu caderninho? Precisava anotar todas aquelas dicas! Precisava de uma cola de estratégias!
Na noite que precedeu o Abraço fiquei até tarde trabalhando no meu cartaz. Acabei tendo ajuda de uma pessoa muito especial para fazê-lo, tornando-o o 1º presente que eu ganharia com essa experiência. Fui dormir às 03h da manhã e acordei às 05h, separei tudo, arrumei numa bolsa e rumei para a Orla.
Estava com sono, mal-humorada, resmungona, mas ver aquele dia lindo nascendo e todo mundo ansioso, caminhando junto, fez as coisas (e o humor) melhorarem bastante! Chegamos ao ponto de encontro e preparação (todo carinhosamente decorado) e eu estava tranquila, a ficha ainda não tinha caído! Vesti minhas roupas, me maquiei (bem mequetrefemente) e fiquei por ali,conversando, parecia que não tinha noção do que aconteceria. Tudo pronto. Todo mundo se junta e, sem que eu pudesse me preparar, a contagem começa! AAAAHHH!
1, 2, 3... Meu Deus não estou pronta!
4,5... O que era pra fazer mesmo?
6,7... Esqueci das dicas, tô ferrada!
8,9... Energia! É isso! Eu já fiz isso antes!
Não sei se minha imaginação é muito fértil ou se realmente aconteceu, mas parecia um desenho animado! Finalmente senti a energia de quase 40(?) pessoas (num "apertamento") girando como num grande caldeirão, colorida, tão física que era quase visível para mim!
E foi essa que no 10 (DEEEZ!) me contagiou. Tirei minha primeira lição, precisamos mesmo do nosso companheiro, pro que quer que seja! Se não gerei energia suficiente eu roubei um pouquinho deles! E ali estávamos nós! O produto dessa complexa equação!

 Descemos todos para a rua e posso garantir que nunca me senti tão destemida, corajosa. Eu sabia de tudo no mundo! O trajeto foi ótimo! Até que chegamos ao Camelódromo (lugar onde se cria camelos, segundo Frida Seriguela) e aí aconteceu!
Senti e ouvi um chamado. Tinha um companheiro me convidando para entrar naquele mundo! Olhei e vi: era Pinika Dôrada! CARA CARAMBA CARA CARAÔ! Era isso mesmo? Eu não a conhecia "diretamente", mas já tinha ouvido maravilhas sobre ela. Olhei para os lados e Inês Tamburete veio também, ainda bem! Precisava de alguém para dividir essa responsabilidade! Dei meu 1º grande SIM para Pinika, e que coisa abençoada foi isso! Peço licença nesse momento a todos para agradecer e falar um pouco de o quão grandioso foi tê-la conosco nesse 1º dia. O jeito que seu jogo fluía me encantava de uma forma que por vezes me percebi embasbacada! A sua experiência não a tornava egoísta ou melhor do que nós, pelo contrário! Ela nos envolvia de uma forma que quando vi já estávamos no embalo há muito tempo! Pinika entendeu que meu jogo (muito falante) e o de Inês (com olhares bem mais fortes!) eram diferentes e nos harmonizou de uma forma que rapidamente nós 3 estávamos, cada uma a seu modo, fazendo de um tudo naqueles corredores! Achamos o Mister Camelódromo, conversamos com moças tão sérias que até pareciam manequins de loja, clamamos por chuva, e tantas outras coisas que me emociono só de lembrar.
Fiapinho estava ali, sem dicas, sem estratégias, sem jogos prontos. Nasceu e ali, em meio a tanta gente, tivemos nosso 1º encontro de verdade. Todos os encontros foram importantes, os receptivos, os nem tanto, os que terminaram em abraços, os que fugiram e até os mal-educados! Mas garanto que o mais importante de todos foi o meu comigo mesma! Vi que Fiapinho era Ana Lu e que Ana Lu era Fiapinho, e que podíamos nos encontrar sempre que quiséssemos! Dois jeitos de ver o mundo e encarar as coisas, ao mesmo tempo tão diferentes e tão iguais! Mas Fiapinho tinha uma vantagem: acabara de nascer. Estava novinha em folha, sem cicatrizes, com uma página em branco pela frente, e o melhor: livre de medos!
Fiapinho escreveu lindamente essa primeira página. Riu, dançou, pulou, se emocionou e aprendeu muito! E principalmente teve a certeza de que era ali que queria e devia estar.
Termino com uma frase que Lisbela Duracel usou em seu último diário: "A vida é tão curta e a gente fica se dando em pedaços. Eu só consigo estar inteiro, o tempo todo, com quem estiver comigo, estar inteiro é se dar inteiro."
Garanto que pela 1ª vez em muito tempo eu estava ali, inteira. Na verdade, duplamente inteira, pois contrariando as leis da física, 2 corpos e 2 almas ocuparam o mesmo espaço, Lulu Fiapinho e Ana Lu. E isso foi maravilhoso! Obrigada!



Ps: Mesmo escrevendo primeiro à mão ficou enormemente longo, tenham paciência de ler!
Ps2: Quando cheguei em casa, após o Abraço, minha mãe havia colocado um novo tapete no meu quarto, em forma de palhaço, o qual ela mesma batizou de Gentilezinha, como não amar?
Ps3: Frida Seriguela, não esqueci de te agradecer, até porque se não fosse por você, nada disso seria possível, obrigada!