Um tempo bom já se passou desde a última vez que vesti essa roupa. Relembrei com esforço dos traços da maquiagem, não podia esquecer nada para que me sentisse completinha pra atuar. A distância entre uma aparição e outra fez surgir um frio na barriga, um medo de não saber mais o que fazer, mas ainda bem que o ambiente lhe mostra o que quer de você. Como sempre, nenhum roteiro pré-definido, nenhuma ala específica, foi sair pro que der e vier. Deixei de lado minhas lembranças da última vez que ali estive, por que senão tudo poderia ter ido por água abaixo se saísse daquela porta pensando que a atuação poderia não ser das melhores, que parece que as crianças não vão com a minha cara... justo eu que todo mundo olha e diz que tenho jeito pra criança. Hoje não pude reclamar de nada. Amei cada momento compartilhado sejam os que nos receberam de cara, ou mesmo aqueles de cara fechada. Ainda bem que foram poucos que não quiseram interagir. Vi futuras mamães na sala “Cristal” quase prontas pra dar a luz a suas preciosidades como o próprio nome da sala sugere, mesmo com dor, interagir conosco. Vi também as mães das mamães preocupadas em fazermos ‘zuada’, mas como tudo é por amor, seguimos nossa rota em busca de novas jóias. Vi que chegar abalando nem sempre é a melhor entrada, chegar devagarinho, ganhando a confiança e atenção de uns pacotinhos de gente todos embrulhadinhos, os tornam verdadeiros presentes pra mim. Ver os olhinhos nos acompanhando, outros fechadinhos irem se abrindo, as mamães brincalhonas, as acompanhantes entrando nas jogadas foi o máximo e surpreendente pra quem está acostumada a ver uma superproteção cheia de ‘xiuuu... silêncio; não pode pegar... licença que o bebê vai mamar’. Todo lugar tinha um ar convidativo. Daí, nos falaram pra passarmos num lugar chamado “Pediatria”. Com esse nome, só podia ter um monte de pezão, mas tinham um monte de pezinhos fofos, uns que corriam no corredor, outros que balançavam na cama, na poltrona. Conhecemos uma menina linda super encantadora, um ano e falava mais com os olhos e gestos do que muita gente grande. Vimos um garoto que mais parecia um sábio com suas respostas às adivinhações e humildade ao dizer que não sabia. Tivemos duas chances de ajudar a nomear dois pimpolhos, porém nossas sugestões eram muito comuns, os nomes desejados eram outro nível além de nossa criatividade. Acho eu que como essas fofuras são únicas para essas mamães, elas queriam um nome exclusivo também. Aquele lugar é um mundo de grande e um universo de pessoas loucas pra regressarem a suas casas, mas sem fazer daquele ambiente um lugar triste. Uma das chefas de lá nos ensinou um novo cumprimento, denominado pela mesma de ‘colocar ovos’. Você pega suas mãos com a palma pra cima e as estende em direção ao outro que recobre as suas. Assim, aprendi a colocar ovos. Como essa terra chama Dom Malan é gigantesca, a nossa jornada por hoje estava se encerrando quando escutamos um chamado. Era Larissa, que como seu próprio nome diz, era a alegria em pessoa. Ela acabara de abandonar a brinquedoteca para nos dar o ar da sua graça e nos dar um dos abraços mais gentil e sincero que já recebi. A gente estava perto de uma placa em formato de uma lâmpada e falamos para junto conosco esfregar a lâmpada e fazer um pedido ao gênio, que tinha ido dar uma volta, por isso não apareceu, mas ele atende a todos os pedidos. Seu desejo foi que pudesse melhorar logo e voltar pra casa. E quando já estávamos nos despedindo, lá vem uma outra princesinha com a mãe pra nos dar um abraço e dizer que queria nos ver de novo, justo ela que nos olhava tão séria. A vida nos surpreende em pequenas coisas, gestos simples tomam outra dimensão e fazem o dia continuar melhor e sem a preguiça de quando acordei pra ir atuar. Essa atuação foi um presente para guardar em minha memória e lembrar com nota 10 de como foi participar da palhaçoterapia. Tunica se despede aqui com um aperto no coração e uma vontade de chorar que não tinha sentido antes ao tomar a decisão. Novos caminhos serão trilhados mas os diários de bordo estão aqui pra me recordar sempre que o jogo tem que ser verdadeiro e que, se não se enche um copo com uma jarra vazia, a minha encheu bastante com essa oportunidade que tive aqui.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Xena Macaxeira, 22.01.2013
Minha primeira vez no Dom Malan me deixou ansiosa, fui a primeira a chegar e não sabia por onde entrar nem onde ficar. Percebi que havia esquecido uma parte da minha roupa que em si não afetaria minha atuação, mas achei melhor só tirar foto, até porque eu nunca havia atuado com Formiga e Tunica e queria ver a dinâmicas das duas...
Ao aguardar as meninas se arrumarem, soube que esta seria a última atuação de Tunica Caqui, por isso senti que mais do que não atuar por causa da roupa ou outra coisa, eu tinha que registrar aquele momento.
Adorei o Dom Malan, aqueles bebezinhos lindos, recém-nascidos, vermelhinhos, as coisas mais fofas do mundo, me fazem pensar em porque eu quis fazer medicina, porque eu queria ajudar as pessoas mesmo sabendo que muitas delas não querem e às vezes nem merecem ser ajudadas, e vendo novas vidas ali, na minha frente, eu lembro que existem sim pessoas que querem ser ajudadas e que podem fazer um mundo melhor dali pra frente.
Não só os bebês, mas as crianças da pediatria também, ver aquela pureza, aquela inocência... Foi muito bom! Encontramos duas crianças ainda sem nome, gostaria que tivéssemos ajudado a escolher, sei lá. Seria muito legal né? Saber que uma mãe não vai esquecer de nós porque nós ajudamos a escolher o nome do filho dela, mas infelizmente ninguém teve uma ideia boa!
=/ mas isso não significa que ela não vai lembrar de nós né?
Ao terminar, uma menininha, já maiorzinha, veio correndo pelo corredor atrás de Formiga e Tunica, querendo abraça-las e tirar foto com elas. Muito bom ver isso. Uma outra mãe com uma menininha de colo também veio atrás das meninas para se despedir, dando um abraço bem gostoso nas duas!
Bom, termino meu primeiro diário de 2013 com a ideia de esperança de um ano melhor e de um mundo melhor, por que não? É possível acreditar nisso vendo os olhos cheios de vida das crianças, e essa vida traz um verdadeiro mundo de possibilidades.
Formiga Espiroqueta, 22.01.2013
“Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui.” (José Saramago)
Parando pra pensar, crescer é tão difícil! Vêm muitas responsabilidades, muitos compromissos, tantas coisas que precisam da sua atenção e de seu tempo. Quando me falavam, anos atrás, que eu ia sentir falta dos meus tempos de criança, achava bobagem, achava que aquilo era só conversinha de adulto. Hoje, atolada em um monte de afazeres, com agenda lotada, paro e percebo que era verdade. Coisa boa é ser criança!
Subir o nariz me permite isso. Me permite ser criança de novo. Me permite sentir potencializados todos aqueles sentimentos bons, de ingenuidade, de pureza, de alegria. Formiga não precisa acertar o tempo todo... Muito pelo contrário, ela pode errar muuuito também! Pode ver que fez besteira e rir horrores disso tudo. Formiga faz um bem danaaaado pra Dani!
Ainda no comecinho da atuação, encontramos um moço no corredor... De cara fechada, por isso dei um BOM DIA daqueles bem caprichados, pra tentar arrancar um sorrisinho dele. Não deu muito certo. Pra falar a verdade deu muito errado! Ele não foi nada simpático comigo. Não sei se ele estava com pressa, com problemas, triste... Só sei que a criança que ele foi um dia deve ter sentido muuuita vergonha dele nessa hora...
Bem, mas não vamos começar com a bola pra baixo! Afinal, hoje eu e Tunica estávamos com muita sorte. Começamos ganhando um bingo! O prêmio? Uma caixa de chocolate?? Um carro??? Uma casa???? Um navio????? Nããããããããão! Muito melhor que isso! Ganhamos um abraço beeeeeem apertado da “bingueira”. E ainda ganhamos um sorriso tão lindo que valeu mais que qualquer outro prêmio. É lindo quando você pára e percebe a beleza que tá contida num singelo abraço... E, seguindo, fomos até advinhas! Era impressionante como sabíamos os nomes de todos que encontrávamos. Era tudo mágica [e, claro, também tinha uma ajudinha da identificação nos papéis que estavam em cima dos leitos, mas isso é segredo! ;) ] Mais impressionante ainda foi quando um pequeno tentou adivinhar nossos nomes. Dei todas as dicas: “Meu nome é o de um bichinho beeeem pequeno que adora doce... Quem é?” Adorei a resposta dele: “Sou eu!!” Kkkkkkkk Linda essa mistura de inocência, de pureza. Ainda tivemos uma amiguinha que nem deu tanta bola na nossa frente, mas depois que saímos, pediu pra mãe nos seguir... Tímida e fofa.
Já no finzinho, na hora que estávamos indo pegar o ônibus de volta pra casa, junto com a galinha do pescoço quebrado, encontramos uma princesinha! Uma princesinha muito simpática que veio nos encontrar pra dar beijo, pra abraçar, pra mostrar um desenho muito bonito, querendo foto... Era a alegria em pessoa!
Quase dentro do ônibus, eis que eu ouço um “Daaniiii”. Me virei para o lado e, como que no modo automático respondi: “oooooooi!” Ops! Jornalada em mim!! Tentei negar, mostrar que era Formiga ali, que Dani não tava respondendo naquela hora. Meu momento crise de identidade. Ficou a lição!
Por fim, baixar o nariz foi um tanto difícil... Hoje, sem dúvidas, foi o dia que demorei mais tempo pra fazer isso. Acho que Dani não queria voltar naquela hora. Queria que Formiga ficasse ali pra sempre. Ficasse ali junto de Tunica, da melhor companheira do mundo... Sabia que o espírito de criança tinha se renovado, que não ia deixar Dani. Mas sabia também que o mundo de adulto ia voltar. Com sua correria, seus compromissos, e, dessa vez, deixando muita saudade! Tunica, a melhor companheira do mundo, que começou as atuações do meu lado quando Formiga ainda engatinhava vai deixar muitas saudades. Mas tudo bem! Como dizem por aí, a saudade é a prova que o passado valeu a pena.
“Lembra o que valeu a pena
Foi nossa cena não ter pressa pra passar [...]”
(Fernando Anitelli – O Teatro Mágico)
Bjooo gigante!!
Formiga Espiroqueta
Chiquita Furacão, 19.01.2013
Pela primeira vez Chiquita atuou com Likita e Sancho juntos. Antes de entrarmos nos personagens, estávamos preocupados porque muitos dos pacientes estavam dormindo, então nos arrumamos com bastante calma. Quando saímos do quartinho nos deparamos com diversas situações: dança da chuva, pessoas famosas, papai-noel, globeleza, uma moça de uma festa dos anos 70, e Sancho acabou encontrando seu irmão.
Não sei se pela falta de atuações ou se pelo cansaço físico, acabei não dando o melhor de mim. Achei que faltou muito e que permaneci a maior parte do tempo como coadjuvante. Já relatei minha dificuldade em atuar com mais de uma pessoa, mas a experiência desse dia foi melhor que a das outras atuações com três pessoas juntas.
Meus melhores companheiros estiveram ótimos, tiveram sacadas incríveis, foram maravilhosos!
PS: Likita é uma exibida com aquele cabelo.
Juju Danoninho, 21.01.2013
Querido diário de bordo,
Preciso admitir que não passei o dia pensando na atuação, talvez porque tinha tantas coisas pra fazer... Mas, depois de um pouco de sufoco estava lá, ao som do Gangam Style, Juju Danoninho e Fefêxogás entraram em ação, com a energia pra iluminar o hospital naquela noite chuvosa. E essa não foi a noite dos grandes jogos, foi a noite dos encontros singelos, da conversa, da brincadeira boba, as vezes infantil. Conhecemos a mulher do zezé di camargo e a mulher do seu cidade paulo afonso, e que danadinha essa última, querendo a pistola do rapaz! Vimos menstruação que sai pelo joelho e até como uma melancia cresce. E assim, de momentos sutis mas grandiosos fez-se a nossa noite, finalizada com um banho de chuva fenomenal até o carro!
Até mais,
Jú.
Fefê Xogás, 21.01.2013
Querido Diário de Bordo,
Já faz tempo que não nos vemos, meu amigo! Da cá um abraço! Pode entrar, sentar e ficar a vontade que eu vou te contar uma história...
Num belo dia de sol... Opa! Dia? Sol? PÊHN! Não, não... Numa bela noite de muito calor, agora sim, vamos eu e Júlia para o HUT dar o nosso mehor mais uma vez na atuação. E que atuação! Nunca encontrei tantos jogos diferentes num único dia. De cara, achamos a amante do Zezé de Camargo que acabou com o casamento dele. Ela estava hospedada num hotel e comprou sua mini Tv no dia 25 de março negociando em chinês com o vendedor. UFA!
Depois de protestarmos pelo direito de aumento de salário de uma nadadora (profissional em fazer nada), achamos um gnomo de máscara verde que tomou veneno de melancia na falta de uma maçã. Este mesmo gnomo tinha tentado suicídio e estava algemado em sua cama. Apesar da dificuldade de falar, foi maravilhoso ver seu sorriso enquanto eu me atrapalhava toda tentando casar a já casada irmã dele com um suposto irmão meu que é um partidão. E isso me fez lembrar de uma frase de Augusto Cury no livro "O futuro da Humanidade": "O suicídio é um grito desesperado pela vida. O suicida não quer dar fim à própria existência, mas à dor que o vem dominando."
Foi uma experiência maravilhosa, com muitos noivos em mim que foram abandonados no altar e menstruações de joelho, além da pistola bem reparada do rapaz e o marido chamado Cidade Paulo Afonso.
Agradeço a Jú por ter sido melhor companheira do mundo e estar totalmente disponível pra mim no jogo a ponto de falarmos juntas a mesma besteira... rs
Cada dia mais eu entendo e me lembro como e porque eu vim parar aqui, pra me tornar uma pessoa melhor, consciente de mim e do outro e promover o encontro entre o melhor desses dois mundos: a nossa verdadeira essência.
I ♥ UPI!
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