sábado, 9 de junho de 2012

Lisbela Duracell, 10-05-2012


Tínhamos que enfrentar algumas armadilhas da imperfeição: Amélia precisava voltar cedo para casa e Xena estava começando a enfrentar um senhor vírus. Massssss, estávamos lá e prontas.  Lembro de dois quartos de forma especial... o primeiro era o quarto do Seu ET(pela intimidade)... e a melhor parte é a boa recepção: “Vocês de novo?? Vão embora!!”. Um fofinho. A gente responde: “É claro que não... soubemos que você não se alimentou direito hoje”. Xena Macaxeira era a novidade. Eles estavam encantados com a beleza dela. 
Outra novidade super doce: o vizinho de seu ET, o cara da ópera que tínhamos tentado acalmar outro dia, estava tranquilo, sem amarras, falando e disse que lembrava da gente, que lembrava de quando estávamos cantando pra ele. E tinha outro vizinho, um senhorzinho agora fazia companhia para Seu ET. Uma fofura. Reclamava de dores em todo canto. Não tinha um dente na boca. Conversei durante um tempo com ele. Depois Xena foi conversar com ele. Menina, quase choro de rir quando ela me contou o que aconteceu. Ela começou um jogo de beijos postais e mandava beijinhos para o senhor e ele mandava de volta. Só que numa dessas cartas ele mandou uma surpresinha... Sabe aquelas mulheres das arábias que ficam cantando uma musica, movendo a língua, mas escondendo isso com a mão?? O senhorzinho mandou um desses pra ela, sem a mão na frente... Que safadeza... Que orgulho também... ela se saiu direitinho, ou seja, criou um jogo e se afastou.

Bom, depois desse tem o último quarto. O cheiro estava bastante “forte”. Tinha três leitos ocupados. Um senhor estava na porta e nos recepcionou pedindo que víssemos o filho dele na cama. O menino não respondia a muitos estímulos. O pai precisava mais. E foi pra ele a atenção. O rapaz do lado tinha o mesmo nome do menino na cama, então era o mesmo pai... “pedimos” que trocassem uns “eu te amo, pai” e um “eu te amo, filho”...

Na frente um outro rapaz, um gênio em informática. Monstrinho. Parente de Carmem Miranda, mas nas queria demonstrar a veia artística e nem deu o endereço da loja dele para levar meu PC para consertar, mas um gênio em consertos...

Nesse último quarto, um problema... Sofia começou a atrapalhar Amélia e Xena sem conseguir respirar direito. Fiquei um pouco só. Era hora do ônibus passar. Aliás, já tinha passado muito da hora...


Lisbela Duracell, 05-05-2012


Sabemos: muitas pessoas, muitos estímulos, mas Miojita se esqueceu de dividir o grupo e me pediu uma ajudinha... de boa!! Lisbela e Flavoca e Miojita, Valesca e Nana e nos corredores, alimentação do olhar do grupo inteiro... lado direito e lado esquerdo: começamos: conhecemos muitas pessoas lindas e no corredor a equipe se reuniu em torno da causa de um dos viajantes do lado esquerdo. 

Um dos senhores queria uma manga. Não comia direito a 11 dias e queria muito, muito, muito uma manga madura. Era o que ele mais queria. Encontrei Miojita sensibilizada conversando com uma das enfermeiras. Elas estavam consultando o prontuário para saber se ele podia comer manga. Ohhh, ele não podia. Mas ela disse que ele podia comer laranja. Miojita e Valesca foram correndo saber se ele queria laranja. Bom, não era uma manga, mas dava, ele aceitava. A enfermeira escreveu uma carta para o pessoal da distribuição de laranjas e o grupo inteiro assumiu a missão... fomos a cantina procurar laranjas em pleno horário do almoço. Não comentando todos os estímulos respondidos, pegamos a fila, um prato, uma faca, entregamos o bilhetinho, e pegamos três laranjas. Reunimos o grupo e voltamos para o quarto. Advinha quem queria havia pedido a manga e iria receber as laranjas... SEU ETVALDO...

Eu estava emocionada. Uma das mais lindas atuações. Tive oportunidades antes e de várias formas respondi, mas pela primeira vez, de forma visível, fomos contrários à inércia das situações, a comodidade da rotina. No outro dia ele recebeu a visita de uma nutricionista do hospital. 

Lisbela Duracell, 12-03-2012



Nina, nem sei se lembra mais dessa atuação. Muitas pessoas lindas. 



E o grande presente de atuar com você ou tê-la por perto organizando ou sonhando com alguma coisa.

  


 Mas, de vez em quando, por algum motivo, pessoas que gostamos muito tem que ir embora. E pegar aquele velho ônibus, ou avião, ou trem, ou disco voador ou algum outro meio clownesco tão verdadeiro quanto um olhar.



Espero nos reencontrarmos muito em breve e continuarmos construindo muitas coisas juntas. Admiro muito você e aprendi muito. 
Beijo Gigante
Abraço Gigante
Saudade Gigante

Boa Sorte, minha querida.

Lisbela Duracell
Ana Vitória Medeiros

Lisbela Duracell, 03-05-2012




Eu confesso que estava nervosa. Com um medo retado de Ana atrapalhar Lisbela. As meninas tinham criado uma expectativa enorme para a “primeira vez” no hospital e eu como “monitora”. E apesar de contabilizar todas as variáveis que podem influenciar nesse momento, como a falta de receptividade, a falta de abertura, a possível não disponibilidade delas ou minha ou do pessoal nos leitos e corredores e enfermaria, eu tinha tomado para mim a responsabilidade de ser muito bom, de segurar o jogo, de ser o melhor possível para que elas soubessem o quanto são boas, lindonas. E elas me impressionaram. Eu era a mãe orgulhosa. Acho que assumi isso fora do clown também, com todos eles. Assumi um cuidado com essa “primeira vez” de vários grupos e compartilhando dessa preocupação com outros monitores.

Foi uma noite de poucos quartos. Foi uma noite de muita dedicação. No primeiro, encontramos uma mulher que queria doces, outra que tinha doces, outra que queria frango assado e muitas marmitas com sopa. Nesse dia o hotel estava com um péssimo atendimento. Colhemos as queixas e nos comprometemos a falar com o pessoal do cardápio.

Nessa procura continuou no outro quarto. Encontramos um cara muito massa. Comprava e fazia muitos jogos. Se não me engano eram três “leitos”: no primeiro tinha um senhor com as pernas muito, muito, ABERTAS, coberto com um lençol branco fino. Estava ao lado da esposa. Lógico que comentamos sobre esse sistema de ventilação das partes. Ainda chegou lá o médico falando com ele. Tirei onda sobre o sistema com o médico que entrou no jogo. Menina, pintei. Ainda subi numa escadinha que tinha do lado, e fiquei falando sobre isso de lá de cima. Muito bom. [Gente, aos que não sabem, tenho miopia e astigmatismo, ou seja, não enxergo muito bem de longe, ou seja de novo, não tenho a menor ideia se a pessoa esta dormindo ou acordada. Conto sempre com minhas companheiras(os) ou tenho que ir bem perto – invento um jogo para essa aproximação também. Por que explicar tudo isso?? Bom, o senhor das pernas abertas estava nu por baixo do lençol e de acordo com minhas companheiras que comentaram sobre isso depois, dava pra ver tudo... EU NÃO VI NADAAAAA!! Imagine minha gente, estou falando para todos os companheiros, tem que salvar o amiguinho numa situação dessas. Claro que não aconteceu nada de grave e possivelmente inventaríamos um jogo caso houvesse, mas temos que ter cuidado...] O vizinho dele estava de turbante e era o cara de vários jogos. Muitas risadas, mas tive que engravidar de uma criança quadrada e minhas amigas lindas encararam a realidade da pouca beleza (brincadeirinha dele). Os jogos nos levaram para o terceiro vizinho, numa noite não muito boa. Me mandou ver se ele estava na esquina. Eu fui para a esquina, mas ele não estava lá. Eu avise, mas ele não acreditou. De boa, muito pouca fé.

Fomos para o quarto da ópera. Foi lindo. Tinha uma mulher sentadinha de costas para a porta, fazendo a unha do marido que estava deitadão lá, na maior. Cheguei quietinha, silenciosamente e fiquei paradinha. Quando ela olhou para o lado e viu meu rosto tão perto, levou um susto e caiu na risada. Eu confesso, eu também não resisti. Olhamos para o lado e tinha uma menina deitada em um colchão no chão, lendo... Responsável pela manutenção da produção cultural do quarto. Do lado, um rapaz amarrado e falando com ele o acompanhante. O rapaz estava angustiado e gritava muito. Para acalmá-lo começamos a cantar canções de ninar:
- “Boi, boi, boi, boi da cara preta...”
- “NÃO”
- Beleza. “Durma medo meu [...]”
- “NÃO”
- Beleza. Lançamos um pagodão no ritmo de canção de ninar... a galera deu muita risada.

Ele se acalmou um pouco e fomos conhecer o outro do quarto. Quando entramos ele estava se escondeu com um paninho no rosto. Só que muitas pessoas no quarto sinalizavam que ele é que estava precisando. Fantástico! Foi um presente, literalmente. Seu Etvaldo (estou divulgando com autorização dele) comprou muito os jogos e de forma muito bela. Até Lorena que estava paradinha na porta entrou no jogo. Um doce. Tínhamos excedido no horário e entrou no quarto Pinic, Likita e Zé avisando que o ônibus estava de saída... tínhamos que ir, só tínhamos um passe naquela noite. Massssssssssssssss, no meio do caminho de volta, encontrei um carrinho daqueles que carregam alimentos ou que apoia um suporte que apoia os alimentos ou lençóis e um rapaz do lado dele. Olhei para o rapaz, olhei para o carrinho, olhei para o rapaz. Ele olhou para o carrinho, olhou para mim, olhou para o carrinho e olhou pra mim e fez um “sim” com a cabeça. Não acreditei: ele permitiu que eu subisse no carrinho e começou a puxar o carrinho e me carregar pelo corredor. Meus companheiros vinham atrás... o rapaz fez uma curva lá na ponta e voltou na intenção de entrar no elevador. Perguntei se podia. Ele: pode!!. Continuei no carrinho e o rapaz, eu e meus companheiros descemos para o primeiro andar. FANTÁSTICOOOOOOO!!!

Sai preenchida. Muito injusto isso: recebi muito mais do que dei. Mas como foi belo estar com vocês meninas e estar com todos eles, nos mais diversos estados de disponibilidade.

Acho que, missão cumprida.










































































































































































































































































































































Lisbela Duracell, 28-04-2012



Conversei com minha mãe uma semana antes. Avisei que o grupo iria atuar no centro de Petrolina, no sábado, e que tinha oferecido o apartamento para a organização. Coisa simples, mãe: o pessoal chega, toma um leve café da manhã, troca de roupa, prepara a maquiagem, o nariz e toma as ruas. Minha mãe: “tudo bem”. Fui dormir por volta de 4h da manhã na sexta. Lembrei que tinha avisado a quem tivesse dúvida em relação ao figurino que poderia chegar mais cedo e tal, às 7h. JESUS!!! Acordei 7h da manhã torcendo pra que ninguém tivesse dúvida. Às 8h o pessoal começou a chegar, a conta gotas, risos e conversas pela sala.  Uma média de 30 pessoas entre clowns e fotógrafos e amigos e família. Menina, a sala, o quarto, a cozinha, o banheiro pequenininhos ficaram ENOOOOOOOOOOOOOOOOOORMES, GIGANTESSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSCOS, UMAS VALAS. Até dei uma olhadinha pra ver se enxergava o OOOCUSPORCU-US por lá. E a graça é que a síndica mora no apartamento de cima e não fizemos questão de limitar sons. Sem sincronia ou ensaio, o pessoal ia se distribuindo entre as atividades. Adorei tanta gente no apartamento. Adorei tanta gente que gosto tanto em minha casa. Estava muuuito feliz. Pouco a pouco foram subindo a máscara e encontrando o outro, alimentando-se no olhar do outro. Foi dada a largada. Lindos, coloridos, fantásticos. Desceram as escadas e encontraram Seu Zé, o porteiro. Como abraçaram Seu Zé... E tantos outros Zés que iam encontrando, conquistados de formas diferentes. E com abraços diferentes. Abraço com os olhos, abraços com os braços, abraços com as mãos, abraços com as palavras, abraços com os sorrisos, abraços com o silêncio. Pouco a pouco fomos relembrando aos novos a importância do caminho e de estar próximo ao melhor companheiro do mundo. A importância da verdade e a beleza, o encantamento do encontro. Pouco a pouco as ruas foram ficando bem pequenas.
 E sabe uma coisa interessante ou intrigante: pessoas agradecendo por compartilharem um abraço ou ressaltando a importância de um projeto que promove esse tipo de “ação”. Continuem fazendo isso e tal. Continuem humanizando os espaços, sensibilizando as pessoas. É triste reconhecer que durante o dia-a-dia corremos tanto que não temos tempo para ver as pessoas, as que estudam com a gente, as que trabalham com a gente, as que vivem com a gente, as que passam na rua, as que moram na rua. Corremos tanto a ponto de não perceber o quanto elas são importantes ou estão precisando de ajuda. Tem um texto de Fernando Sabino em que ele diz o seguinte: “Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo. Um anormal, um tarado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa – não é um homem. E os outros homens cumprem seu destino de passantes, que é o de passar (...). Passam e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.” Acho que com todas essas “possibilidades” de encontro, o “ABRAÇO GRÁTIS” serve-se de muito mais simbolismo, de um alerta geral para a cegueira pública, humana, desumana, que pouco a pouco, com justificativas superficiais, ignoram o que realmente é importante na vida, o que vale a pena. 

























































































































Lisbela Duracell, 24-04-2012




Um dia emocionante... na tentativa de aplicar o que tínhamos aprendido na última oficina e no mesmo nervosismo e ansiedade de sempre. Estavam lá, jarras cheias e completo vazio, minhas companheiras lindas. Nem lembro a ordem dos quartos. Nem sei direito como descrever a senhora “pato”. Quando chegamos ela estava sentadinha na cama e segurando uma máscara de oxigênio. Ela começou a tentar falar e Pinik disse que parecia um pato... Menina, para quê?? Miojita se agarrou àquilo e começou a se comunicar com a senhorinha na linguagem dela. Mio falava “Quên” e a senhorinha respondia “quên”, arriscamos um “quên, quên”, a senhorinha respondia “quên, quên”. ‘Quên, quên, quên, quên, qua, quên?”, ela: “aí não dá não”... Meu irmão, RISOS, encontramos o riso e continuamos o “quênquên” com outras pessoas do quarto que também compraram o jogo. Uma Delícia!!


Nesse mesmo ambiente conhecemos a dona de uma discoteca inteira: o celular dela, quando tocava, acendia um milhão de luzes... O que tínhamos que fazer?? Ligar para o celular!! Começamos a campanha para que ligassem para o celular para que acendessem as luzes e para que todos dançassem com a música. Numa dessas, me preparei demais e exagerei na dose... dei um grito quando o celular começou a tocar. Foi mal. Queria tanto, tanto, tanto que ele tocasse que quando tocou “fui a 1000%”. Infelizmente uma das senhorinhas do quarto se incomodou e pediu que voltássemos depois. Foi triste” Tudo bem, minhas companheiras seguraram a onda.


Já em outro ambiente, conhecemos o cara mais culto daquele lugar, com um livro em punho e uma plateia. Era também um homem de pouquíssimas palavras. Seu vizinho de quarto era um mágico. Fascinante. De truques interessantíssimos. Ele simplesmente colocava um líquido dentro de um recipiente (uma seringa) e o fazia sumir pelo canudinho. Simplesmente fascinante!


Logo depois, senhores que grandes conhecimentos na área de danças... Nem lembro mais o nome daqueles ritmos e gestos, mas nós nos tornamos especialistas.


De repente Miojita encontra uma carta de amor, em várias línguas. A dona era muito bonita e o amor dela um rapaz muuuuuuuito apaixonado. Nem a mulher das arábias conseguiu ler determinados trechos da carta. Coisa linda.

Foi nessa que encontramos uma dupla de cantores mudos. Maravilhosos... Tinhas pulseiras lindas, da última moda. Eu, Miojita e Pinic começamos a dançar por toda a sala. Impressionante: e naquele passo de dança mais MAIS o sapato APREGA no chão. Bonito! Coisa bonita! O que a gente faz? Descola o pé, cola novamente, descola e cola e escuta a música... MASSA.

Nesse clima entramos no quarto da frente e imediatamente fomos expulsas... De boa, respeitamos também, ela queria o silêncio...


Outro quarto, a menina da “playboy”, quanto potencial. Mas a melhor parte, a boate... O que é preciso: um amigo, um interruptor de luz, uma lâmpada no bocal, um ou dois melhores companheiros do mundo inteiro e muita vontade... UM SHOW!!!



E advinha quem pede pra gente voltar: a menina que tinha mandado a gente sair do quarto... muito fofinha... Voltamos, afinal, pra amor, carinho, atenção, somos fáceis, vamos fácil...

E lembra daquela coisa que apregou no sapato e fizemos música?? Era vômito!!! Tão legal...

Queria agradecer muitão a Rayanna e Dayane que nos acompanharam nesse lindo dia. Obrigada meninas. Vocês foram super gentis.